“O Desmanche” de Craca e Dani Nega contra o desmonte dos direitos sociais

“O Desmanche” de Craca e Dani Nega contra o desmonte dos direitos sociais

Show de lançamento trouxe participações de Luedji Luna, Clarianas, Roberta Estrela D’Alva e Ilú Obá de Min

Parceria irreverente e original de Craca e Dani Nega chega ao seu segundo trabalho com o álbum político-poético, “O Desmanche”. O show de lançamento aconteceu no último sábado, dia 5 de maio no Sesc Pompéia e contou com a participação especial do Bloco Afro Ilú Obá de Min com mais de 20 mulheres no palco, da cantora Luedji Luna, da poeta Roberta Estrela D’Alva e do grupo Clarianas, de Taboão da Serra, periferia de São Paulo.

A sonoridade da dupla é formada pelas experimentações musicais do produtor Craca e das composições poéticas de Dani Nega. O resultado é uma mistura de música eletrônica, rap e música tradicional brasileira, como na canção “Boi Navegador” com a participação do grupo Clarianas, com cantos ancestrais de origem afronordestina-indígena.

Com a participação especial e antecipada de Roberta Estrela D’Alva na canção “Não Pise na Bola“, o show ficou ainda mais dinâmico e potente em sua natrureza política e a presença da slammer levou o público ao delírio.

 

Esse caldeirão de tradição e futurismo sonoro ainda recebe generosas doses de poesia política, levantando reflexões acerca do corpo negro e periférico no mundo, como nas canções “Na Faca, Na Fúria, No Grito ou no Dente” ou “Peito Meu”, com participação especial de Luedji Luna, nesta última. No show, aliás, as participações de Luedji e Estrela D’Alva foram invertidas já que Dani estava nervosa com o lançamento, como admitiu em palco e inverteu a ordem das apresentações no setlist. Nada que o Cracabeat não pudesse lidar, é claro.

Futurismo sonoro: show para ouvir e pensar

Em oposição à palavra dura do rap, em entrevista à rádio Eldorado Dani conta que se debruçou sobre memórias afetivas e palavras suaves para construir suas rimas. Em “Quando Voltarão?” a homenagem às vítimas da violência tinha tudo para ser dolorosa com a menção dos nomes de Amarildo, Cláudia e Marielle, entre outros, seguidos do grito de “presente!” na canção e no show, mas o ritmo leve e introspectivo da canção penetrou na pele e comoveu ao trazer de volta à vida tantas vítimas do racismo institucional. Durante o show, o público bastante diverso e envolvido com as canções entoou os nomes dos mortos e, juntos, levantaram os punhos cerrados em sinal de respeito e luta à estas vidas ceifadas.

É justamente por conta dessa violência estrutural que o álbum se chama “O Desmanche”. Segundo Craca, o nome remete à ilegalidade dos desmanches de automóveis roubados para venda de peças, processo parecido com o atual desmonte de políticas públicas e de direitos sociais no Brasil.

 

Reforçando o tom altamente político do álbum, a dupla convidou o bloco Ilu Obá de Min a tocar uma canção emocionante para coroar a militante histórica Dona Raquel Trindade, falecida no mês passado.

Apesar do tom crítico, o álbum se provou em vida e em show, ser positivo e dançante, convidando o ouvinte a se envolver com os movimentos sociais que lutam por mudanças nas ruas, nos coletivos e na música.

É para ouvir, dançar e pensar.

Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros, de espírito ambíguo e riso alto, trago o humor incerto e de vem em quando, estou mais em paz com o mundo. Uns dizem que é coisa de signo, outros dizem que é arte, coisa de persona. Seja lá o que for, sigo sendo leitora frequente, estudiosa da música e escritora de publicações ausentes.

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