E cicatriz lá tem função?

E cicatriz lá tem função?

Poetas discutem amor, poesia e efêmero no Sesc Pompeia

Até pouco tempo atrás, eu achava que não, cicatriz não tem função, as vezes só tem significado mesmo – e as vezes nem isso. Mas foi durante a leitura de um dos trechos do livro “Todas as funções de cicatriz” de Lâmia Brito em um dos debates do ciclo “Lá na Laje” realizado no Sesc Pompeia que descobri – ou melhor, relembrei – que cicatrizes são marcas que reverberam e ecoam por tempos infinitos dentro de nós e que sua função primordial é exatamente esta: relembrar para ressignificar.

A lição final, na verdade, veio da própria autora durante o debate realizado com a jornalista e mediadora Jéssica Balbino, na última quarta-feira (18). Lâmia trouxe relatos importantes de sua vida, passando pela experiência de se enxergar como autora, difícil processo de autoaceitação do corpo e pelas várias cirurgias que fez, especialmente após a cirurgia bariátrica que lhe deixou muitas cicatrizes – é dessa metáfora que nasce o nome do livro, aliás.

Giovanna Lima, vulgo G.L., também participou do debate e, de forma espontânea – mas não sem alguma dor e incredulidade – compartilhou as cicatrizes de sua vida de poeta, autora e mulher lésbica. Autêntica e descontraída – tal como seus poemas pelas ruas de Curitiba (PR) – G.L. contou o último caso de preconceito que havia vivido: cerca de 10 minutos antes do evento havia sido atacada por uma senhora que depois de ofendê-la, cuspiu em seu rosto. Assim sem mais, nem menos.

Em comum entre as poetas, além das cicatrizes que circundam suas obras, está a paixão pelas ruas e pelo que é efêmero. Ambas têm poesias curtas pixadas ou por elas mesmas ou por terceiros em cidades como São Paulo e Curitiba, por exemplo e a escalada de opressões e o cenário de perda de direitos e liberdades, tem afastado as autoras das ruas, receosas de possíveis processos ou represálias. No entanto, resistem com coragem e bom humor, mas apesar disso, G.L. diz que vai continuar escrevendo porque “vandalismo é não falar de amor”.

“Essa foi a forma que eu encontrei de dizer ao mundo que eu amo, que estou viva e com isso, fazer a cidade um pouco mais amorosa também”, conta G.L., que já foi inclusive perseguida e processada por seus pixos em muros abandonados. “Eu acho que sem a rua, eu não seria uma poeta completa porque nunca fui tão lida como sou lida quando escrevo nas ruas”, afirma G.L.

Poesia efêmera
A qualidade do que é efêmero é também sua maior desvantagem: desaparecer rápido. Com pichações feitas de 2014 até agora, Giovanna e Lâmia lidam com o processo de desapego da obra diariamente, mas segundo Lâmia esse desapego não é de todo real.

“Parece efêmero, mas não é porque a poesia fica ali rondando a sua cabeça, pairando dentro de você. Tenho memórias de cada poesia do meu livro e a poesia continua viva mesmo depois do livro ou depois que apagam, porque até as palavras que aprendo para escrever continuam em mim”.

G.L. destacou ainda outro componente nesta conta: a tecnologia. Com a existência das fotos e das redes sociais, é possível que um trabalho seja apagado dos muros, mas nunca esquecido. “Eu não estaria aqui se não fossem alguns poemas e ver que impactam outras pessoas que nem conheço, é transformador e mostra que estamos no caminho certo”. Apesar disso, existem muitos plagiadores que roubam seus trabalhos e assinam a autoria – e apesar do sentimento de raiva que o assunto poderia gerar, G.L. surpreende mais uma vez ao dizer: “prefiro pensar que as pessoas só copiam coisas boas e que se alguém rouba minha arte e assina com o nome dela é porque deve estar boa mesmo!”

O próximo Lá na Laje – Clube do Livro sem Livro que desacraliza a imagem do livro e dos autores como algo inacessível acontece no próximo dia 16 de maio, a partir das 19h30 no Sesc Pompeia, com a participação de Jô Freitas e Jessé Andarilho, com  mediação e curadoria de Jéssica Balbino.

Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros, de espírito ambíguo e riso alto, trago o humor incerto e de vem em quando, estou mais em paz com o mundo. Uns dizem que é coisa de signo, outros dizem que é arte, coisa de persona. Seja lá o que for, sigo sendo leitora frequente, estudiosa da música e escritora de publicações ausentes.

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