Problemática pura: os narradores masculinos de Fernanda Young

Problemática pura: os narradores masculinos de Fernanda Young

Em Estragos, autora estraçalha corações com histórias sobre amor, bebidas, traições e literatura

Fernanda Young, 47 anos, indicada para o Emmy Internacional com seriados de comédia por duas vezes; uma das escritoras de “Os Normais” (!!!), roterista, atriz, diretora, apresentadora… Não à toa fui à livraria e quando me deparei com o livro “Estragos” dei pulinhos; não só pelo título ao qual me identifiquei de imediato, mas por ser escrito por uma mulher que transborda autenticidade – desde os seus trabalhos à sua imagem.

O livro traz 19 contos, uns maiores e outros bem pequenos, narrados majoritariamente por homens falando sobre bebidas, traições, literatura e… amores. Não sei bem em qual momento isso me incomodou, mas homens falando sobre amor sempre me remeteu à ilusão. Quando mais nova eu também escrevia em narradores masculinos porque era minha forma de dedicar os textos às mulheres que amei; no entanto, Fernanda não parece amar mulheres; os homens que ela interpreta são solitários e tristes, do tipo que estraçalham corações e os têm estraçalhados.

“Eu não devia te-la iludido dessa forma. Mas contava que ela acabaria percebendo que isso não seria bom para nós dois. Cada um com uma intenção, pensando no poder de enganar o outro. Nós dois erramos.” (30 milhões de vezes).

“Tornei-me, por essas singularidades, além de falso, solitário.” (O fina-flor).

“Sou um homem impaciente, que acreditou estar morrendo varias vezes. Aquela história de a morte pedir cigarro, sim, a morte me pediu e eu neguei, apavorado.” (A criada que lia Bukowski).

O livro é pura problemática. É machista, porque os homens são. É comum, é suicida, é repetitivo. Mas não é cansativo, ao contrário, é imenso. É a relação de amor e ódio, exatamente equilibrado, numa mesma proporção no decorrer da leitura. E enquanto leitor você se sente invasor. E sente pena do narrador. E sente asco. E sente carinho.

“Só que um dia, entre as gargalhadas idiotas e uma boa conversa com uma mulher elegante e discreta, você ficará com a segunda. Porque não terá graça nenhuma ouvir uma velha contando piadas picantes.” (Hélices)

“Ele mesmo pouco sabia sobre si mesmo, além do fato de que bebia para suportar e, mesmo assim, não suportava.” (Saco de gatos)

De alguma forma, a intensidade da Fernanda passa por cima de toda moral e bom costume e isso parece bom.

Leitura absolutamente recomendável àqueles que têm Bukowski e Caio na cabeceira da cama. E aos que não tem, queimem depois de ler.

“-Um ser pequeno com cartola, de no máximo seis centímetros, me falou, enquanto dançava em meu ombro, que você não me ama.

-Ora, meu bem, então peça para ele sapatear em seu clitóris.” (Pequenos diálogos purpúreos)

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Brisa de Souza é fotógrafa, organizadora do Slam de Quinta em Paraty (RJ), poeta tímida, Mãe do Bento, descende de matriarcas bruxonas. Nascida em 93, morre todos os dias pelo menos uma vez.

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