Escrever livros ela mesma (ou a coragem de ser escritora de primeira viagem)

Escrever livros ela mesma (ou a coragem de ser escritora de primeira viagem)

Livro investiga os papéis de mulher na literatura e aprofunda a discussão sobre feminismo nas obras literárias

“A gente não precisa estar certa. Precisa crescer e fazer crescer”. A delicadeza e a potência dessas palavras, presentes na dedicatória do livro escrito por Adriana Kimura, que publica contos e crônicas na internet, me fez querer pular páginas e mergulhar no universo narrativo e investigativo do livro “Comprar Flores Ela Mesma” de uma só vez. A dedicatória, tão longa quanto delicada, já dava pistas do que encontraria dali para frente: o poder e o significado da literatura.

O livro, um projeto de conclusão de curso em jornalismo e por isso mesmo, autoral e autopublicado, é uma espécie de livro reportagem que investiga os papéis de mulher na literatura passando por cânones literários como a mulher personagem e a mulher leitora, além de trazer de forma pertinente, a figura da mulher militante e fazer distinções interessantes sobre a mulher como autora e como narradora na literatura ocidental.

Adriana defende que “quando você escreve, você realmente entrega o seu jeito e a sua visão da coisa, até que sem querer, você transmite perspectivas que você nem percebeu” e por isso mesmo, os livros escritos por mulheres tem uma potência grandiosa e tem tomado cada mais espaço no mercado editorial e nas livrarias.

Bastante influenciada por Virgínia Woolf – a referência ao romance Mrs. Dalloway no título é explicada logo nas primeiras páginas – Adriana acredita que historicamente as mulheres tiveram suas vozes negadas na literatura e por isso mesmo vê na escritora inglesa sua principal referência.

Em plena década de 1920, numa época na qual as personagens femininas tradicionalmente recebiam construções superficiais e papéis sem relevância, Woolf foi a primeira mulher a viver como escritora na Inglaterra.

 

Feminismos na literatura

Adriana acredita que a literatura é a coisa mais delicada sobre construir um mundo onde haja mais espaço para as mulheres, já que escrever e registrar a própria narrativa é um ato político e isso, por si só, quebra paradigmas e constrói novos conceitos sobre o que é universal e comum a todos os seres humanos. Para ela, as mulheres devem escrever mais e que “qualquer coisa que uma mulher escreva vai ser a perspectiva dela” o que já é suficientemente um político na literatura, libertando todas as mulheres da obrigação de conscientemente colocar o feminismo como protagonista oculto das narrativas. A decisão de pautar ou não o feminismo nas narrativas se torna uma opção e não uma amarra literária para as escritoras.

“Eu acho que literatura faz isso com o maior poder possível [libertar os autores de qualquer obrigação] porque você pode escrever sem pensar politicamente, mas essas coisas que você escreveu tem desdobramentos políticos e esses desdobramentos estão em aberto para a interpretação do público sempre”, defende.

Como exemplo desses desdobramentos involuntários de obras escritas e publicadas por mulheres, Adriana cita Conceição Evaristo e Seane Mello, ambas escritoras entrevistadas por ela para escrever “Comprar Flores Ela Mesma”. Para a autora, as escritoras brasileiras desvirtuaram a perspectiva masculina com suas narrativas femininas em diversos assuntos, indo de contos eróticos às poesias sobre o dia a dia de pessoas negras e periféricas, imaginando e tecendo realidades, e por isso mesmo, ambas são escritoras potentes com suas vozes e desdobramentos políticos possíveis.

Com um tom autoral e um pouco pessoal, Adriana viu seu trabalho ser chamado de livro de memórias – sem qualquer tom depreciativo – pelas pessoas que compunham sua banca. Mas talvez o livro também se encaixe junto à outras experimentações em jornalismo gonzo. Além de serem obras verborrágicas, a semelhança com o gênero se dá também pela coragem de publicar algo verdadeiro e comprovável ao lado de lembranças e comentários próprios sobre as descobertas feitas, uma vez que no estilo New Journalism – novo jornalismo o autor se esmera na experiência da reportagem e narra si mesmo como personagem presente na história.

A história de “Comprar Flores Ela Mesma” é recheada de histórias de mulheres escritoras que narram o desafio de entregar sua verdade, de se autopublicar e de bancar as próprias escolhas literárias – tal qual Adriana em sua descoberta como autora no momento em que tudo o que precisava era publicar um livro para se tornar uma jornalista. Ao fazer isso, o meta-livro levanta reflexões sobre o próprio fazer jornalístico e fazer literário.

Jornalista inquieta, Adriana logo tomou para si o papel de perguntadora oficial e quis saber o que eu achara do conto autoral “Espera”, que finaliza o livro. O conto narra a história de uma jovem acadêmica – um pouco hipocondríaca – que aguarda para ser atendida no consultório médico. Ao entrar na sala para a consulta, a jovem descobre estar grávida. E ao invés de pensar sobre tudo o quanto seria esperado pensar em casos assim, a personagem Felipa se pega pensando em coisas alheias ao óbvio e nós leitores, passamos a acompanhar aflitos todas as perguntas infinitas sobre as quais ela não estava pensando para tentar descobrir sobre o que afinal Felipa estava pensando sobre tudo aquilo. Mas a história acaba e ficamos sem respostas concretas – nem sobre Felipa e nem sobre nós como mulheres naquela situação.

E esse efeito foi proposital. Adriana acredita que quando a gente lê, tudo gira em torno de se colocar no lugar do personagem e pensar que tipo de aprendizado a narrativa desperta. “A literatura tem uma força imensa de trazer o pensamento autônomo, de ter a vivência emocional daquilo e isso vem de deixar a obra aberta”, comenta.

 

Ler é não ter respostas

“O que eu acho interessante sobre a experiência da literatura é que você fecha o livro e ele não tem respostas para as suas perguntas – e eu acho isso um grande alívio, especialmente por causa da internet, porque com ela quase que a gente não aceita sair sem resposta”, provoca.

“Na literatura não é assim, ela é isso que está ali, você fecha o livro e pronto, acabou e não ter uma resposta é o que mais faz a gente se questionar sobre as coisas e ficar pensando sobre a obra, sobre a história”.

Quando perguntei o que significa a leitura Adriana foi direta e assertiva: “a leitura obriga você a enfrentar as coisas a partir da sua perspectiva, é o exercício mais corajoso de autoconhecimento, de saber onde você está e para onde quer ir”.

A razão para escrever o conto foi encerrar o trabalho de conclusão de curso se arriscando em fazer justamente aquilo que investigou por meses a fio: publicar um livro, sendo mulher autora, leitora, narradora, personagem e militante.

“Apesar de toda a ambientação feminina, eu queria trazer a imagem de uma mulher que pensa sobre ela mesma, sobre a própria vida e sobre as decisões que vai tomar e mostrar como isso é roubado por outras questões do ser mulher no mundo”, afirma.

A autora escolheu a gravidez justamente porque essa é uma experiência universal entre as mulheres e é também muito feminina, mas com as reações da personagem quis chamar atenção para o fato de que “no final das contas, a personagem continua preocupada em como contar isso para as pessoas ao redor e não em como lidar com a gravidez e o desenvolvimento da carreira ou com a mudança que iria fazer, por exemplo”, perdendo o protagonismo da própria história mais uma vez.

 

Publicar ou publicar, eis a solução

Sobre a coragem publicar, Adriana – escritora de primeira viagem – se vê em conflito. Ela sabe que é preciso publicar porque “seu trabalho deu trabalho” para escrever, mas também sabe que é difícil lidar com auto-cobranças e expectativas sobre sua obra.

“Eu tenho a impressão que para a nossa geração, a arte é uma coisa que vai cair do céu e não é. Exige disciplina, atenção, estudo”, pondera.

Mas, por outro lado, Adriana também é esperta e se mune de bons argumentos e bons exemplos nessa jornada.

“Todas essas questões são sobre se ver em outras mulheres e se reconhecer como escritora. Eu vejo que o primeiro desafio é se enxergar nesse lugar, é saber que isso passa por ter caderninhos, fazer anotações e escrever para dar vazão aos sentimentos e à imaginação. E sempre vai ter alguém para criticar, que não vai gostar e tudo bem, não é isso que deve nos limitar, sabe?”. Sei.

 

“A Conceição Evaristo fala muito isso, que a Carolina de Jesus a autorizou a escrever e ela autorizou a Jenyffer Nascimento. E eu espero te autorizar e espero que você autorize outras mulheres também”, comentou Adriana, bastante que suas palavras ecoariam em minha cabeça. E ecoaram. Lá atrás a poeta e ativista feminista Audre Lorde me autorizou a dizer que não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que suas amarras sejam diferentes das minhas. E isso me deu forças para me movimentar onde precisava me movimentar. E talvez agora, depois deste ano inteiro lendo mulheres e depois de ler sobre os papéis de mulher na literatura escritos por uma mulher, eu me sinta um pouco mais autorizada a dizer que somos um pouco mais livres do que antes.

 

SERVIÇO
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Keytyane Medeiros

Keytyane Medeiros, de espírito ambíguo e riso alto, trago o humor incerto e de vem em quando, estou mais em paz com o mundo. Uns dizem que é coisa de signo, outros dizem que é arte, coisa de persona. Seja lá o que for, sigo sendo leitora frequente, estudiosa da música e escritora de publicações ausentes.

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