um ensaio sobre o poema ‘Vagina’ de Maria Teresa Horta

um ensaio sobre o poema 'Vagina' de Maria Teresa Horta

Meu interesse pela poética erótico feminista surgiu por acaso, ou melhor, tive uma aula sobre o poema ‘Vagina’, de Maria Teresa Horta, na aula do Prof. Dr. Emerson Inácio, um dos professores da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, ou ECLLP. Militante do Movimento LGBT, suas aulas demonstravam as relações entre a literatura de países falantes do português como Brasil, Angola. Moçambique, Portugal etc.. Mas sempre sob uma perspectiva marginal, abordando autores que pertencessem às chamadas “minorias”, como as mulheres, os homossexuais, as classes oprimidas pela elite financeira, aqueles deixados de fora pelo sistema patriarcal hegemônico.

Acho importante, então, repetir pelo menos três vezes a palavra “vagina”, pois iremos utilizá-la bastante, em seguida, o poema: vagina, vagina, vagina.

A VAGINA
É cálida flor
e trópica mansamente
de leite entreaberta às tuas
mãos

feltro das pétalas que por dentro
tem o felpo das pálpebras
da língua a lentidão

Guelra do corpo
pulmão que não respira

dobada em muco
tecida em sua água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
no ventre entorpecida
nas pernas sequestrada

Localiza-se rapidamente estes sons, associados a essa mancha de tinta sobreposta ao papel, como um ‘discurso poético’. O que mais se pode localizar aqui?

— A experiência feminina.
Vemos então o poema atingir uma esfera coletivizante, por meio da qual se comunica com a leitora, ou o leitor. Do contrário, um poema escrito apenas para o próprio autor, com o qual não se identifique mais ninguém, é gradativamente deixado de lado e, com o tempo, esquecido, passa a não existir historicamente. Um poema esquecido pode deixar de existir.
Este é um dos motivos pelos quais pesquiso a obra de mulheres. Também gosto de poemas de autores masculinos, porém esta pesquisa é dedicada apenas a mulheres pelo fato de serem invisibilizadas durante o processo histórico do cânone, gradativamente esquecidas.
O que mais localizamos no poema?

— O desejo.
Podemos perceber o desejo facilmente: 1. em ‘(vagina) de leite entreaberta às tuas / mãos’ ; 2. com mais atenção, em ‘da língua a lentidão’ , por concebermos que a língua seja um órgão extremamente ágil para escapar dos dentes durante o processo de deglutição, portanto, atribuindo lentidão a ela, imaginamos que esteja envolvida em um contexto íntimo (como em um beijo), ou sexual; 3. em ‘(vagina) carnívora voraz’, tendo como objeto de desejo o próprio suco…
— Psicanálise.
Onde podemos, por exemplo, contextualizar o desejo.
— Metáforas.
Muitas, algo bem característico do discurso poético.
— Na passagem ‘flor carnívora voraz do próprio suco’, podemos interpretar a autonomia do próprio desejo.
Sim, tanto no contexto da masturbação quanto no contexto de autonomia do desejo em si, que simplesmente se realiza ao acontecer. A este ponto, já é possível começarmos a falar de uma experiência estética.
— Ou efeito estético.
Agora temos um rizoma. Nele, os elementos se conectam, se permeiam, se atravessam, se afastam, se aproximam… A cada novo olhar, constrói-se um novo rizoma, pois o que se manifesta do rizoma é a experiência dele, o encontro, a potência. E não necessariamente um reflexo da poesia.

Além desses elementos, para que se legitime o discurso poético em certo poema, é necessário localizar sua ‘forma’ poética, ou seja, localizar suas rimas e sua métrica — o que ficará para outra oportunidade.

Partimos, então, da premissa que o poema em questão exiba versos e exiba rima.

Tão importante quanto a forma, para que se legitime um poema, é buscarmos localizá-lo dentro da tradição literária. Isto pode ser feito, de forma superficial hoje por conta do tempo disponível ao nosso encontro, aproximando-o da poesia confessional de Anne Sexton em ‘Quando o homem entra na mulher’:

QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER

Quando o homem entra na mulher, como a rebentação batendo na costa, uma e outra vez, e a mulher abre a boca de prazer e os seus dentes brilham como o alfabeto, Logos aparece ordenhando uma estrela, e o homem dentro da mulher ata um nó, de modo que nunca mais possam voltar a separar-se e a mulher trepa a uma flor e engole o sua haste e Logos aparece e solta os seus rios.

Este homem, esta mulher com o seu duplo desejo tentaram atravessar a cortina de Deus e conseguiram-no por um instante, embora Deus na Sua perversidade desate o nó.

Uma das aproximações mais simples se dá no mote do encontro amoroso, da intimidade compartilhada e da autonomia narrativa, presentes em ambas (apesar de haver no poema de M.T.H. também a presença de elementos que possibilitem a indicação de masturbação).

Outra comparação possível, e fundamental também para a localização do poema no âmbito feminista, é a aproximação entre o poema ‘Vagina’ com as trovas das Cantigas de Amor e de Amigo. Utilizando dois modelos como exemplo, respectivamente um trecho do Rei D. Dinis e outro, integral, de João Garcia Guilhade, fica claro o deslocamento realizado por M.T.H.:

– Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?

– Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs comigo! Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do qui mi á jurado! Ai Deus, e u é?

*** Amigos, non poss’eu negar a gran coita que d’amor hei, ca me vejo sandeu andar, e con sandece o direi: Os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assi.

Pero quen quer x’entenderá aquestes olhos quaes son, e d’est’alguén se queixará, mais eu… ja quer moira, quer non: Os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assi.
Pero non devi’a perder ome que ja o sen non há de con sandece ren dizer, e con sandece digu’eu ja: Os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assi.

Na Cantiga de Amigo de D. Dinis, a mulher vive a espera por seu amado. Em geral, assim se encontra o eu-lírico feminino neste gênero de cantiga. Já na Cantiga de Amor de João Garcia, o homem fala sobre seu enlouquecimento por não experienciar o amor que sente, referindo-se também aos olhos verdes da amada, algo ousado e perigoso para a época, pois, se a dama fosse identificada, o fato de ser citada por um trovador lhe renderia a ruína moral, afastando possíveis pretendentes e impedindo sua única forma de sobreviver (dentro dos padrões considerados aceitáveis para uma mulher dignificada), o casamento.

O eu-lírico atribui tal ousadia ao fato de haver enlouquecido e não ser mais ele mesmo, eximindo-se da culpa. Do contrário, poderia morrer caso o marido, pai, irmão etc., sabendo da honra perdida pela esposa/filha/irmã, decidisse retomá-la.Para reforçar sua inocência, ele também deixa claro que o motivo de seu enlouquecimento é o par de olhos verdes da amada.

As Cantigas de Amor e de Amigo seguem dois padrões:

1. Cantiga de Amor – autor masculino que constrói um eu-lírico também masculino, este jamais experienciará o amor, idealizando a experiência amorosa – e, caso cante que o fez, será responsável pela ruína da amada;

2. Cantiga de Amigo – autor novamente masculino constrói um eu-lírico feminino, que vive em sofrimento devido à ausência de seu amado, idealizando a experiência amorosa.
Em ambos os casos, a relação amorosa não se consuma. Nos casos em que ela se dá, o gênero da cantiga torna-se satírico, o que altera também seu tom. Um verdadeiro tormento para qualquer dama que ousasse projetar-se, chamando “indevidamente” a atenção dos trovadores.

Outro ótimo exemplo de secundarização do papel feminino é a tradução deste trecho de uma cantiga francesa:

“Quando você quiser, você pode me beijar
Dentro de seus braços eu quero dormir
Bela Jolanda o abraça firmemente
E, à francesa, ELA O estende no meio da cama.”

 

Porém, a tradução do original, em francês antigo, para o francês moderno segue a regra do actante masculino:

“E, à francesa, ELE A estende no meio da cama.” – um código moral transmitido por meio do traço estético da época.

M.T.H. realiza, em meio à temática do envolvimento amoroso presente nas cantigas, alguns deslocamentos:

– Autor masculino => “Autor” feminino;

– Eu-lírico masculino que aborda o corpo da amada => Eu-lírico feminino que aborda o próprio corpo;

– Eu-lírico feminino que espera solitário => Eu-lírico feminino em engajamento amoroso;

– Temática discreta e amenizada => Temática explícita e incisiva.
Retomando a questão de autoria, é vital pontuar que, durante toda a produção medieval de almanaques, mesmo nos casos de exemplares publicados por mulheres, a lista com o nome dos autores exibiria primeiramente a lista de ‘autores’, depois a lista de ‘senhoras’.

Uma exibição como esta tinha a função de impedir o deslocamento das mulheres de respeito para o ambiente público, aonde assumissem oficialmente uma publicação, mantendo-as circunscritas à esfera doméstica. Publicar seria como em um breve passeio “publicacional”, porém nunca autoral e definitivo.

Ainda tratando da questão de autoria, um dos casos autorais mais interessantes na história de mulheres escritoras é o caso de George Sand, casada com Chopin, mãe de um menino e uma menina concebidos em um casamento anterior. Tesla (seu nome verdadeiro) assumira uma identidade masculina, publicando seus famosos e bem-sucedidos romances, aceitos por grande parte da sociedade da época.

As questões de autoria e temática em M.T.H. seriam, por si só, suficientes para localizar o poema ‘Vagina’ no contexto feminista. Porém, além delas, tem-se também as questões de deslocamento, que não serão compreendidas em sua totalidade sem as devidas considerações históricas. Tais questões inserem este poema ao mesmo tempo na tradição, legitimando-o como discurso poético, e no âmbito político, referente ao feminismo e à categoria de manifesto.

Assumindo um eu-lírico feminino e ativo dentro do ambiente íntimo, sexual e erótico, a autora cria uma distensão estética, obrigando-nos a produzir ferramentas de análise. Esta problemática gera uma série de precedentes que extrapolam a estrutura da crítica literária, encontrando no rizoma deleuziano, por exemplo, termos capazes de dar conta deste novo alcance.

A experiência rizomática, apesar de ser uma adaptação da obra de autores do sexo masculino (Deleuze & Guattari, Mil Platôs), permite que o poema ‘Vagina’ se localize simultaneamente nos seguintes ambientes

Discurso poético, devido aos seguinte elementos:
– Forma, dadas as relações de rima e versificação + figuras de linguagem, como as metáforas de fauna e flora;
– Na tradição literária, devido às relações intertextuais que estabelece com a poesia confessional e com as cantigas trovadorescas de Amor e de Amigo, por exemplo;
Espírito coletivo, devido às referências anatômicas de gênero;
Ineditismo, ou, ao menos, na projeção visionária, devido ao deslocamento do eu-lírico feminino (entre outros deslocamentos), legitimando-se, assim, na história da literatura;
Política, por conta de tais deslocamentos. O que o insere também no âmbito feminista;
Manifesto, justamente por conta de seu teor político.
Tais elementos, como discurso poético, forma, rima, versificação, figuras de linguagem, tradição, relações intertextuais, espírito coletivo, projeção visionária, feminismo, teor político e manifesto, criam entre si uma rede rizomática, ou seja, uma rede flutuante e mutável.

Nela, seus elementos se aproximam e se afastam, de acordo com a experiência de quem os observa. Estas relações de elementos que se visitam formam um “mapa” conceitual do poema – um mapa mutável -, de onde podemos extrair a experiência cartográfica:
poema => cantigas => tradição;
tradição => cantigas => deslocamento;
poema => deslocamento => feminismo;
tradição => feminismo => ineditismo;
entre outras. O rizoma e a cartografia permitem, assim, que a análise do poema ‘Vagina’ se dê sob a luz de novas perspectivas, capazes de alcançar e revelar sua importância histórica.

Texto extraído do ‘Encontro com Uma Cartografia do Corpo Feminino’ e imagem encontrada no site  (14 de março de 2017, 15h).

Morena Borba é autora do livro 'Estética Marginal, vol.2', a pesquisadora se dedica à filosofia e à história da arte, com foco em intervenção urbana, produção de mulheres e ambientes de gênero. Utilizando a cartografia deleuziana, produz análises críticas sobre corpo, obra e identidade como territórios de disputa.

1 comentário


  1. É a minha garota… Parabéns
    Li tudo. Muito denso e intelectualizado para o gosto de um pobre marquês…
    Não gostei do desenho da ditacuja!
    Bjs
    Popôio

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