Conheça três livros sobre ditadura militar e golpe escritos por mulheres

Conheça três livros sobre ditadura militar e golpe escritos por mulheres

Em tempos de intervenção militar no Rio de Janeiro, listamos três indicações de leitura para que não percamos a capacidade de nos indignar

O período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) foi marcado por diversas situações econômicas, sociais e políticas de extremos: as liberdades corrompidas, as desumanidades nos chamados “porões da ditadura”, espancamentos, perseguições etc e em diversas situações podemos perceber nesse período a imposição da força, poder e autoritarismo ao invés da construção coletiva e democrática.

Para entender melhor este contexto, separamos aqui na coluna Eclética Contemporânea três indicações de leitura escritas por mulheres sobre a ditadura militar, para que não percamos nossa capacidade de nos indignar. Beatriz Bracher, Adriana Lisboa e Ivone Benedetti são as autoras escolhidas para esta lista. Com seus livros, elas revelam bastidores de um dos períodos mais sombrios da nossa história e fazem valer a máxima da literatura engajada e/ou de denúncia.

É importante notar que o Brasil faz parte de um grupo de países da América Latina que sofreram com a questão das ditaduras, cada país ao seu modo, com suas especificidades. Mas reavivo o contexto latino-americano para expor algumas possíveis causas, da literatura brasileira sobre a ditadura, comparecer tardiamente, assim como a nossa memória histórica sobre a mesma.

Faz-se fundamental também relembrar que tivemos uma saída “conciliatória” da ditadura militar, além disso, tivemos um processo de anistia dos crimes cometidos durante esse período, logo após a ditadura. E o desmantelamento, enfraquecimento proposital das lideranças e dos movimentos de resistência como um todo, dado isso, penso que houve um longo período de “panos quentes”, receio de resquícios das crueldades da ditadura ainda reverberar e até de luto onde as pessoas deviam ter receio de contar, denunciar e compartilhar os fatos que tinham vivido na época.

Tanto que são poucas obras literárias produzidas no Brasil sobre o que se chama “literatura de testemunho” nesse período, e também sobre esse período. Diferentemente do Chile, que tem uma extensa produção sobre “literatura de testemunho” sobre e no período da ditadura chilena.

Porém, vale ressaltar que o Chile logo ao final da ditadura instaurou a Comissão da Verdade para investigar os crimes do regime, enquanto no Brasil a comissão só inaugurou em 2011 e antes disso em 2002 criava-se a Comissão da Anistia. No Chile a saída da ditadura teve o surgimento de diversos movimentos de resistência pós-ditadura, como “As mães de maio” que agora continuam a sua resistência como “As avós de maio”.

A literatura também é uma fonte de memória e de dialogo, é uma linguagem extremamente importante para refletir e denunciar os fatos dos momentos históricos, a partir de uma série de pontos de vista.

Em 2010 acontece um refluxo histórico na literatura brasileira, que talvez possa ser atribuído à criação da Comissão da Verdade, que traz a tona memórias do quanto esse período foi nocivo e o quanto de resistência houve ao mesmo tempo. São diversos relatos de pessoas que reconstituem esse período histórico do Brasil, a partir de outras perspectivas, a perspectiva das pessoas que tiveram as suas vidas muitas vezes destruídas pela instauração da ditadura militar.

O debate público sobre a ditadura militar no Brasil começa com os processos de julgamento do regime através da Comissão da Verdade. Outro fator importante é que com o amparo de uma instituição que defenda os interesses legais de pessoas que tiveram suas vidas devastadas por esse regime, a criação dessa comissão em si também é uma segurança para as pessoas realizarem as suas denúncias sobre esse período.

Coloco esses dois países em comparativo para pontuar como causa possível da literatura brasileira retratar a ditadura tardiamente. Contextualizado isso, indico três livros escritos por mulheres que retratam o período da ditadura no Brasil:

Beatriz Bracher, 1961: “Não Falei” (2004). Editora 34

O livro de Beatriz assim como de Adriana (que veremos em seguida) tem a “narrativa retrospectiva” do personagem principal, são características para se pensar dentro dos estudos da literatura, pois talvez a reconstituição das memórias da ditadura favoreça esse formato de narração.

A obra “Não Falei” é uma conversa em que um professor, militante e jovem na época da ditadura, está prestes a se aposentar, mas acaba sendo chamado para uma entrevista:

“Vejam então. Fui torturado, dizem que denunciei um companheiro que morreu logo depois nas balas dos militares. Não denunciei, quase morri na sala em que teria denunciado, mas não falei. Falaram que falei e Armando morreu. Fui solto dias após sua morte e deixaram-me continuar diretor da escola.

A trama é um suspense investigativo que procura dar ao leitor um panorama da resistência militante e a ansiedade de saber se no final o militante delatou ou não o seu grupo de resistência contra a ditadura?

Adriana Lisboa, 1970: “Azul corvo” (2010). Editora Rocco

O livro é narrado pela jovem órfã Evangelina, que faz a retrospectiva de sua a história para encontrar o pai e tem surpresas ao se deparar com a reconstituição das suas lembranças do padrasto Fernando, um desertor da Guerrilha do Araguaia (1967-1974) durante o período da ditadura militar.

A autora realizou diversos acessos a documentos militares antes e durante a formulação desse livro, em um dos trechos

“Eu achava que Fernando não gostava de gente. Como segurança, na biblioteca, ele mantinha sempre aquele ar profissional e distante – o que não dever ser muito difícil, imagino, quando você é segurança. As pessoas não ficam se aproximando de você para bater papo. Ele usava aquele uniforme que impunha respeito, algo oficial e imbuído de poder, e os braços fortes por baixo do uniforme, e a cara de poucos amigos arrematando tudo (Lisboa 2010: 62).”

Acho importante também, a questão documental. Os documentos do período da ditadura militar foram por muito tempo de acesso restrito, ou simplesmente queimado, pois podiam incriminar, documentos são provas. É interessante a autora ter acessado os bancos de dados de informações sobre ditadura que estão disponíveis a sociedade civil, após a criação da Comissão da Verdade. O que ressalta o comparativo inicial do texto sobre a construção de uma literatura com a temática da ditadura no Brasil.

Ivone Benedetti (1947) “Cabo de Guerra” (2016) editora Boitempo
Nesse livro também encontraremos uma “narrativa retrospectiva”, é a história de um rapaz baiano que chega em São Paulo para ganhar a vida durante a efervescência política de esquerda no período do regime militar, torna-se um militante, a autora nos faz acompanhar as ânsias desse personagem num “cabo de guerra” de escolhas ou talvez nem tão escolhas assim) entre a militância de esquerda ou servir a ditadura militar.

É um livro de tirar o folego que traz diversos fantasmas que acompanham o personagem principal. O livro cobre um período longo, que vai do fim dos anos 60 até 2009 e a narrativa é muito bem construída para manter o leitor atento à história. Ivone mantém também um blog pessoal chamado

“A grenha” em que compartilha suas opiniões sobre política, filmes, literatura e etc, agenda e contos muito interessantes. Rememorar o período do Regime Militar no Brasil é de extrema importância para que não repitamos mais esse período e para que não nos percamos nos erros que já foram cometidos e pontuo a literatura como algo essencial nesse processo, trazer narrativas de resistência, trazer o período como pano de fundo nas histórias ficcionais ou não é fundamental para que a partir do imaginário possamos construir melhor o nosso posicionamento e discernimento justos sobre o regime militar no Brasil e como ele afetou, afeta e afetará diversas pessoas e a sociedade brasileira como um todo.

Que a literatura e outras produções artísticas sejam capazes de nos tornar e de nos encher de questionamentos sobre a esfera política, econômica e social que compartilhamos em sociedade. Que não recobremos nem endossemos regimes políticos antidemocráticos, autoritários e que desconsideram a vida e a divergência humana como parte importante da vivência coletiva.

Em tempos de intervenção militar no Rio de Janeiro (2018), reivindicar um regime que custou tão caro para sociedade como um todo e para quem foi atingido diretamente, só pode se justificar por uma memória muito falha ou pura crueldade.

Espero que a arte na sua sutileza, juntamente com outros instrumentos de luta, seja propagada e ainda se proponha e seja capaz de lutar seja pela letra, pela lata, pela lama, pela lira, pela lida e que possamos sempre nos indignar diante das situações de opressão, que possamos lembrar esse período não em festa, mas em tom de critica, que possamos chorar nossos mortos e lutar pelos vivos e não nos permita mais colocarmos tantas vidas em risco de novo, pelos mesmos motivos e com os mesmos métodos.

Sidélia Silva

Sidélia Silva mora em Campinas/SP e milita nas causas raciais e de gênero, gosta de café e muito de ler e escrever descontraidamente (mas só descobriu isso depois do mestrado) sobre diversos temas. No Margens é autora da coluna #EcléticaContemporânea.

1 comentário


  1. Olá, Sidélia.
    Obrigada pelas indicações de leitura. Nesses tempos sombrios, a boa literatura é uma grande aliada.
    Compartilhei seu texto na minha timeline, no Facebook, e a Carolina Tarrio, amiga que nasceu na Argentina e vive no Brasil há muitos anos, observou o seguinte: “Isa, acho que o texto misturou a ditadura chilena e a argentina. As mães e avós da Plaza de Mayo são da Argentina, elas começaram sua resistência ainda durante a ditadura, desfilando caladas, com panos brancos na cabeça e as fotos de seus filhos e parentes “desaparecidos” nas mãos, na praça que fica em frente ao palácio do governo. Vc conhece a autora, para dar esse toque?”.
    Não a conheço pessoalmente, mas achei que valeria dar o toque por aqui. Você consegue editar seu texto para corrigir essa informação?
    Um abraço, Isabella

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