Agora e na hora de nossa morte, de Susana Moreira Marques reforça a importância das boas memórias

Agora e na hora de nossa morte, de Susana Moreira Marques reforça a importância das boas memórias

Autora portuguesa destaca que ao final de tudo, a arte é a única coisa que perdura

O mês dois do calendário é, para mim, sempre carnavalesco, mesmo que os folguedos de momo fiquem para março. E também melancólico. Não acredito na alegria da festa, parece-me algo desesperado todo o sentimento que exija exageros, excessos: de música, de bebida, de plumas e purpurina.

Neste ano, o bloco dos doentes de febre amarela engrossa. Com vacinas fracionadas e filas pelos estados do Sudeste. Pagam os macacos, os pobres animais que, como os humanos, padecem da doença. O Mico Leão Dourado será extinto pela febre ou pelas pauladas de humanos assustados? Mais fácil pegar mico que matar mosquito. A sorte é que, o Aedes, mosquito urbano, não é um eficaz transmissor do vírus. Por enquanto, transmite apenas dengue, chikungunha e zika.

Pelas margens, escapo. Aferro-me à literatura. Não aceito que me acusem de escapista. Ao contrário, vejo demais e sinto em excesso. E a literatura salva, ora se não? “a arte é a única coisa que perdura” aproveito para citar Deleuze e Guattari e calar os sedentos pela realidade materialista. Não os mando pentear macacos, é perigoso. Para os primeiros, evidentemente.

Dos livros que li, gostaria da falar de um em particular, dos primeiros que li este ano: Agora e na hora de nossa morte, de Susana Moreira Marques, lançado pela Tinta da China em 2013.

Em 2009, a Fundação Calouste Gulbenkian criou um projeto que visava oferecer cuidados paliativos a doentes terminais domiciliados na região do Planalto Mirandês, em Trás-os- Montes. A autora acompanhou as visitas desta equipe no ano de 2011.

O primeiro trecho do livro é composto de anotações. Breves, contundentes,  sobre as estradas: “A mesma estrada não parece a mesma e, por outro lado todas as estradas se parecem umas com as outras. Movemo-nos em círculos, imitando as águias”, observações sobre a metáfora da vida como viagem, do nosso percurso por ela, dos caminhos percorridos, das diferenças e semelhanças entre cada morte, das grandezas escondidas em cada pequena vida, das vilas que morrem com seu velhos e de castelos que são o testemunho material de que nada de importância dura. E torna a voar a águia:

“Nós, pequenos, junto da águia, pés na terra, somos governados pelo medo”. O medo da morte ou talvez do desconhecido: “Mas não é a ideia de desconhecido que assusta: é a ideia de que não haja desconhecido; apenas fim”.

Também se explica o que são cuidados paliativos: tentativas de diminuir as dores, reconfortar os doentes ou suas famílias.  E a beleza da narração, uma homenagem que eu vejo à escrita:  “Quando as pernas deixarem de andar, caminharemos pelas memórias. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas. Quando as pernas deixarem de andar e os olhos deixarem de ver e os ouvidos deixarem de ouvir, caminharemos pelas memórias e estas serão nítidas e vozes esquecidas contarão tudo de novo”.  E está certo. A arte é a única coisa que perdura.

O segundo trecho é composto de retratos: De Paula, de João e Maria, de Sara. A primeira, uma mulher jovem que descobre sofrer de um câncer e vai morrer dele. João e Maria, um casal de retornados de Angola, e ele, também com um câncer terminal e, por fim, a história de duas irmãs que perdem o pai. Parece tão pouco, tão comum… Histórias das pequenas misérias, mas são belíssimas construções narrativas a nos mostrar como os dramas humanos são sempre os mesmos e nunca os mesmos; cada vida humana pode ser uma grande narrativa quando encontra um narrador que a saiba contar.

O último trecho cujo título é: quando regressares da viagem que ninguém saudável quer fazer, vais, é um emocionante conjunto de frases que, se não chegamos a pensar algum dia, talvez ainda cheguemos e, se não, recomendo que busquem lê-lo no livro da Susana Moreira Marques, um relato precioso e pungente que leva o leitor a pensar, não apenas na morte, mas, em verdade, na vida, como na última frase do livro, que cito aqui, para atiçar a curiosidade dos futuros leitores: “mais do que pensar que a cada morte o mundo acaba, pensar que a cada nascimento recomeça o mundo”. A carne de nada vale, mas a vida deve ser bem vivida.

E, pelas margens de fevereiro, à margem da folia, despeço-me desejando a todos um ótimo mês, com muita literatura.

 

Resenha | Agora e na hora de nossa morte 
Autora: Susana Moreira Marques
Editora: Tinta da China, 2014
Páginas: 200
Avaliação: ****

Alexandra Lopes Da Cunha

Alexandra Lopes Da Cunha é de Brasília (DF). Tem 4 livros publicados e premiados: Amor e outros desastres, Vermelho-Goiaba, Bífida e outros poemas e Demorei a gostar da Elis, ambos publicados pela Editora Kazuá. Faz doutorado em literatura e escreve no blog Cinderela Descaída.

 

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