Alforria, folia e fúria: as reivindicações que vimos no Carnaval 2018

Alforria, folia e fúria: as reivindicações que vimos no Carnaval 2018

Impressões sobre o grito do povo preto nas ruas durante o Carnaval 

por Jô freitas* 

SER EM SÃO PAULO, UM BLOCO AFRO COMPOSTO SOMENTE POR PRETAS E PRETOS – UM BLOCO PRETO. CONSTRUI-LO COLETIVAMENTE, EM COMUNHÃO. CONSTRUI-LO ENQUANTO CONSTRUIMOS NOSSO AMANHÃ A PARTIR DE NOSSAS TRADIÇÕES, JUNTO DE NOSSOS SEMELHANTES, DE FORMA QUE ELE SEJA FRUTO E REALIZAÇÃO PRETA. CULTUAMOS A ANCESTRALIDADE POR MEIO DO TAMBOR COMO FUNDAMENTO E PONTO DE PARTIDA PARA O FUTURO DE UM MUNDO QUE SEJA MAIS DE NOSSO JEITO.

 –   Lívia Anjos ( Zumbiido-Bloco Afro Percussivo)

Neste Carnaval de 2018 pudemos ver muitas reinvindicações que nos mostra que a folia pode ser um canal de conscientização sobre as questões sociais atuais, portanto os três tópicos que abre como tema do artigo nortearão o texto:

ALFORRIA: Mais de 300 anos de escravidão e desde o início o povo preto lutou por liberdade, estamos no século XXI e ainda buscamos, seja, liberdade de expressão, liberdade nas escolhas, liberdade em ser o que somos, a nossa alforria atual vem dos guetos pretos existentes no mundo, diante disso muitos ainda banalizam dizendo que pretos estão cheios de “MIMIMI” ou que são agressivos, ouvindo isso sempre digo “Quem nunca foi oprimido não sabe a fúria que existe depois da chicotada” e contudo isso acompanhando os blocos afro, enxergamos o quanto discussões ligadas as questões raciais estavam presentes, eram grandes quilombos e culturas africanas sendo homenageada pelos blocos,  ainda é preciso alforria de um sistema político que não nos representa, alforria da violência contra a mulher, alforria de um condição social que empurra a margem ainda mais para as bordas, prestes a cair num abismo que não sabemos qual é, mas sabemos quem seriam os alvos.

FOLIA: Em especial vou falar de um bloco afro de rua que teve uma repercussão muito forte em São Paulo, BLOCO PRETO ZUMBIIDO AFROPERCUSSIVO que este ano realizou sua primeira saída no centro de são Paulo, com fantasia referente ao povo nômade, feito pelo ateliê Casa Cléo.

O BLOCO PRETO ZUMBIIDO AFROPERCUSSIVO existe desde 2013 em São Paulo e não possui sede. São pretas e pretos da diáspora que lidam com o nomadismo como sendo uma realidade histórica imposta aos excluídos pelo racismo estrutural vigente.

Buscando assim, a criação de instâncias territoriais imateriais de sobrevivência e manutenção de suas tradições. É um bloco preto por ter critério racial – o ingresso faz sentido somente à pretas e pretos. Assume para si a afro descendência como referencial organizacional na expectativa da construção de novas perspectivas e de ideários coletivos e a afro ascendência como busca investigativa constante.

ZUMBIIDO é um estado constante de “perguntação plana”, uma apropriação imaginária intuitiva da experiência e da identidade preta.

Bloco Afro percussivo, que pra além do carácter musical, é uma tentativa remota de valores pan-africanistas. É música, dança, literatura, artes plásticas, design, moda, cinema e tudo mais quanto baste para despertar o olhar da produção negra contemporânea para o novo-não-existente que deve ser afro centrado, sobretudo em seu modo de fazer.

Idealizador foi Eliton Tadeu de Jesus  vulgo Elioti, um preto das quebradas de Diadema (SP) com um sonho de viver em comunidade e partilhar de um horizonte em comum com nossos irmãos.

Texto enviado por Juliana Jesus integrante do bloco:

Foi possível ver a grandeza do que é o povo preto unido, a zumbiido é comunhão e partilha, as lagrimas em mim escorreu ao ouvir o canto que parecia dos ancestrais.

“Sou um, é amor, minha cor, minha raça, a missão, alimenta coração e destrói o poder da opressão, dei me a mão e conte comigo, eu sou seu abrigo eu sou seu irmão”  – Composta pelo idealizador Elioti

 

Os pé doíam e o coração pulsavam junto ao tambor, a lagrima, o suor e a chuva banhava abençoando cada um de nós.

Assim como este bloco é possível conferir muitos outros que se denominam bloco afro que fizeram a folia ser mais consciente, como:

Bloco Afro Ilú Obá de Min
Bloco Eu Sou do Axé
Bloco Samba do Seu Ze
Ile Ache Omo Ode
Kuringa Movimento Cultural Afro Bantu Paulista
Projeto Kazunji
Movimento Cultural Cidade Tiradentes – Bloco Afro Axé Kalifa
Bloco Eletro Afro Muriçoca Soul
Bloco Afro Afirmativo Ilu Uno
Bloco Afro é di Santo
BatucAfro
Bloco Afro Batakerê
Bloco Afro Babalotim

Dentre muitos outros que existe dentro e fora deSsão Paulo nos mostra que essa lista vai muito além dos citados acima, mencionando, por exemplo, a grande repercussão da escola de samba do Rio de Janeiro “Paraiso do Tuiuti”

Com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, sobre os 130 anos da Lei Áurea, a agremiação fez duras críticas ao atual governo e expôs, em uma das alas, como a reforma trabalhista e da Previdência representariam essa nova escravidão no Brasil. (Extraído da Revista Fórum)

Que, na tela da globo emudeceu os comentaristas ao mostrar um presidente vampiro, os negros escravizados apanhando do capataz e tantas reivindicações foram alegoria de uma inquietação social mundial. Emudeceram a Globo, mas deram voz à tantas dores do povo preto.

FÚRIA, peço que pensem o que é fúria, peço que respeitem a fúria feminista, a fúria preta e fúria social, como escreveu Bertolt Brecht no poeta “Os que lutam”: 

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Perdoai aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis. – Bertolt Brecht

Quanto se luta todos os dias e depois se deparar com um ato preconceituoso é quando a fúria vem, mas agora só é observado a fúria do oprimido nunca se ver o agressor, assim como a mulher assediada não encontra alguém para defendê-la no ato da violência, então, ela cria suas próprias armas de proteção, digo isso porque a mídia manipula as ações de resistência como sendo algo banal ou exagerado, chamando as feministas de feminazi ou os pretos como sendo racista reverso (algo que não existe) como se fosse apenas violência o que lutam, digamos NÃO, povo preto está cansado de ser bola, chutada para o gol com vitória de uma classe dominante, como exemplo citarei aqui um acontecimento na rua com os blocos de carnaval.

Uma mulher branca estava com uma peruca black power e uma mulher negra de nome Mayara no qual eu conheci naquele mesmo dia, olhou para ela e disse: Meu cabelo black não é fantasia de carnaval e arrancou da cabeça da mesmo jogando ao chão, outra mulher pegou a peruca e tentou devolver para a“ dona” ela se recusou e saiu com seu cabelo escorrido. Muitos olhares de aprovação e reprovação houve na hora, isso é comum, sempre temos uma opinião sobre tudo, mas quando a opinião não entende o quanto as pessoas negras estão cansadas de serem lembradas apenas com chacota e desrespeito não existirá essa tal de empatia, povo preto não quer ser piada, fantasia e nem escravo de um discurso que não nos valoriza, não queremos nega maluca, não queremos índios e não queremos empregadas pois se não nos respeitam enquanto iguais, em direitos e em dignidade, toda fantasia assim será um ato racista.

Se não querem fúria, também não queremos. Mas se tiver guerra seremos os melhores combatentes.

Ainda assim, prezo pelo encontro e pela partilha que é possível acontecer no carnaval, que venham mais blocos que nos ensinam a ser cada vez melhores.

ALFORRIA, FOLIA E FÚRIA são sem dúvida o grito do Carnaval 2018

 

Jô Freitas é poeta, atriz, idealizadora do Sarau Pretas Peri e poeta residente do Sarau das pretas. Essa artista nordestina e adotada por são Paulo se denomina cenopoeta, por vir do teatro, da poesia e da dança , seu trabalho poético está neste universo “performático” sendo um grande diferencial na cena cultural poética, seu trabalho fala essencialmente da mulher, negra, nordestina, periférica. Mais em: https://www.facebook.com/jofreitaspoeta/

1 comentário


  1. Passando pra deixar aqui minha concordância com o ponto de vista da colunista Jô Freitas, esse carnaval traz atona com muitas nuances essas praticas de escravidão moderna que põe ao chão o discursos de brancos racistas, que encistem em afirma o vitimismo, ou outras teorias que justificam as praticas de exclusão e racismo e marxismo contemporâneo. Aproveito pra parabenizar seu trabalho. E como colunista, tu começas brilhando, como estrela que cativa e liberta irmãos com arte e informação.
    Suane Brazão.

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