“Irmandade da Palavra: a voz da mulher no Recôncavo” reunirá novas escritoras do Recôncavo da Bahia

“Irmandade da Palavra: a voz da mulher no Recôncavo” reunirá novas escritoras do Recôncavo da Bahia

Projeto comandado por mulheres promove oficinas itinerantes em diferentes cidades do recôncavo baiano

por Andressa Souza dos Prazeres*

Aprovado pelo Edital Setorial de Literatura-2016 da SecultBA, o projeto “Irmandade da Palavra: a voz da mulher no Recônvaco” apresenta-se como um conjunto de oficinas itinerantes de poesia, contação de histórias e outras artes da palavra por mulheres. Percorrerá as cidades de São Félix, Santo Amaro (Acupe), Saubara e Cachoeira fomentando encontros em torno da literatura em suas várias formas e plataformas: escrita criativa, leitura dramática, performance, vídeo, livro, intervenção poética e autopublicação.

Muito já foi dito a respeito da tradição de contar histórias no nordeste brasileiro: cantadores de viola, repentistas, cordelistas, histórias de santos, histórias de pescador, história que não acabam mais. O Estado da Bahia marca expressivamente o cânone literário nacional, tendo, por exemplo, Gregório de Matos como um dos primeiros poetas brasileiros. Na prosa também, com Jorge Amado, Antônio Torres, Joao Ubaldo Ribeiro e uma porção de escritores que beberam  do cotidiano baiano e suas histórias para construírem obras de grande valor para nossa literatura. Entretanto, essa extensa tradição literária inclui pouquíssimas vozes femininas. Vozes essas que, aqui no Recôncavo, temos valiosas oportunidades de reconhecer na composição poética de samba, rap, saraus literários.. Todos espaços que oferecem resistência e muitas dificuldades para a inserção de mulheres.

Ainda assim, podemos acessar suas produções e ouvir suas histórias graças, exclusivamente, aos seus próprios esforços, enfrentamentos, afetos e atos de resistência. São histórias marcadas pelo trabalho, pelo convívio familiar, o comércio e pelas variadas manifestações culturais da região, tais como a marujada, o nego fugido, o samba de roda, a religiosidade afro-brasileira, as festas de São João.

Propondo a formação de uma “Irmandade” (termo de afeto e resistência) em torno do poder das palavras, o projeto pretende incentivar e fornecer meios para que as mulheres do Recôncavo escrevam e levem a público seus escritos, seja por meio digital, pela produção dos livros artesanais (na contramão do monopólio das editoras), pela troca de escritos autorais entre si, por intervenções poéticas, leituras dramáticas e discussão de obras consagradas escritas por mulheres, principalmente, das que falam de lugares marginalizados, tais como Carolina Maria de Jesus, Stela do Patrocínio, Conceição Evaristo, e pela publicação de uma antologia que será distribuída em escolas e outras instituições culturais.

Para tanto, serão feitas oficinas em espaços públicos, com carga horária total de dezesseis horas, distribuídas em quatro encontros por cidade, que devem acontecer de Fevereiro a Julho de 2018. Ao término das oficinas, nos dedicaremos a preparação de um livro com a seleção dos textos produzidos nas quatro cidades, as ilustrações do processo, minibiografias das escritoras e breves relatos das experiências em cada um dos locais. A antologia levará o título “Irmandade da Palavra: a voz da mulher no Recôncavo” e deve ser lançada ainda este ano, na cidade de Cachoeira.

Confira as datas e horários previstos para as oficinas:

São Felix – 17, 24 de fevereiro, 3 e 10 de Março (sábados). No Museu Casa Hansen Bahia, das 9h às 13h.

Acupe (Santo Amaro) – 17, 24 de Março, 7 e 14 de Abril (sábados). Local e horários serão divulgados em breve

Saubara – 28 de Abril, 5, 12 e 19 de Maio (sábados). Local e horários serão divulgados futuramente.

Cachoeira – 30 de Junho, 07, 14 e 21 de Julho (sábados). Local e horários serão divulgados futuramente

 

*Andressa Souza dos Prazeres é mais uma filha das migrações. Da Bahia para São Paulo, de São Paulo para Bahia, e sempre de beco em beco, revirando os dejetos da metrópole e inventando poema de tabaroa, sigo falha em escrever currículos ou fazer discurso em terceira pessoa. Mas posso dizer que me fiz gente em São Miguel Paulista, bairro periférico da zona leste de São Paulo, e hoje vivo em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia. Há anos que não sei precisar, dedico minhas leituras à literatura produzida pela milagreira resistência das mulheres pretas desses Brasis. Isto para mim é cura e bálsamo. Aqui no Recôncavo, juntamente com a poeta Bárbara Uila, fundamos em 2017 a Cartonera das Iaiá, editora independente dedicada às artesanias de construção do livro, priorizando a publicação de escritoras estreantes. Dessa amizade e do contato com outras poetas e cronistas da cidade, nasceu o projeto “Irmandade da Palavra: a voz da mulher no Recôncavo” que, com apoio do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, está se tornando um forte coletivo de mulheres em torno das artes da palavra.

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