FOME: o soco no estômago dado pela escrita da gorda Roxane Gay

FOME: o soco no estômago dado pela escrita da gorda Roxane Gay

Livro de norte-americana reconstrói a biografia do próprio corpo e coloca o dedo na ferida da gordofobia 

por Jéssica Balbino*

Não tem outro jeito de fazer a resenha do livro FOME: uma autobiografia do (meu) corpo, da Roxane Gay  (Globo Livros, 290 páginas) sem ser de uma forma pessoal. O livro apareceu para mim, na timeline, como tantos outros, mas me chamou a atenção imediatamente: que livro é esse que fala sobre fome? Foi uma pessoa gorda que escreveu? quem é ela? Dias depois, encontrei uma resenha em alguma revista feminina. Mais alguns dias depois, resolvi comprá-lo sem saber muita coisa.

Comecei a ler e conforme ia avançando, me identificava com muita coisa. Trata-se de um livro muito corajoso e verdadeiro. Roxane Gay é hoje uma escritora famosa, traduzida e muito bem-sucedida. É também PhD em Comunicação e leciona em universidades dos Estados Unidos. Mas nem sempre foi assim. A história dela – e do corpo – porque ambas não são deslocadas, começa quando, aos 12 anos, ela é estuprada. Desde então, comer torna-se um refúgio para acalmar aquela garota assusta e engordar torna-se  um caminho para afastar o interesse masculino no corpo. Roxane Gay é uma mulher negra, filha de haitianos. Roxane Gay é uma mulher gorda, negra, que foi estuprada coletivamente aos 12 anos. E são incontáveis as marcas e dores que esta mulher carrega por causa disso.

Dos 12 aos 42 anos, Roxane Gay relata idas e vindas a médicos, consultas e uma luta árdua e dúbia sobre abandonar o corpo gordo. Ela não quer ser gorda, mas não quer que o seu corpo atraia pessoas que possam machucá-lo novamente. No entanto, ele já está machucado e o que passa a ser ferido, constantemente, é a sua alma. Ter um corpo gordo é ser ferida aberta. Ter um corpo de mulher é ser ferida aberta. E o livro escancara isso e põe o dedo na ferida a cada página.

“Voltei para a escola e meus colegas de turma admiraram meu novo corpo, me fizeram elogios, queriam andar comigo. Essa foi a primeira vez que eu percebi que a perda de peso, na verdade, a magreza, era uma moeda social. Em meio a essa atenção, eu estava perdendo a minha recém-encontrada invisibilidade e isso me apavorou (…)”

Essa foi a primeira citação que grifei. Ela mexeu demais comigo. Eu sou uma mulher de 32 anos. Sou uma mulher de 32 anos e gorda. Assim como ela, percebi muito cedo que a magreza é uma moeda social. Não fui estuprada, não sou negra nos EUA, não sou filha de imigrantes. E descobri, muito cedo, que ser gorda afasta as pessoas. É preciso – para as pessoas magras – serem desapegadas dos padrões para terem amigos gordos, para saírem e namorarem pessoas gordas – escrevi sobre isso aqui, no texto “Eu sou a gorda do Tinder” da Hysteria – , para posarem em fotos ao lado de pessoas gordas, para atribuir algum valor a um corpo gordo. E não importa que por trás deste corpo gordo exista uma pessoa.

O livro escancara o que a sociedade faz com as pessoas gordas todos os dias e reforça o que quem é uma mulher gorda sabe: nossos corpos são vistos como indisciplinados. Nós somos vistas como sujas, incompetentes, inabilitadas a habitar o mesmo mundo que pessoas magras porque não conseguimos – jamais perguntam se queremos – domar nossos corpos. Não importa o quão disciplinada sejamos em todas as partes da vida: na academia, na universidade, nos relacionamentos, no trabalho. Nossas conquistas não importam. Nossa fama, tampouco. Somos imensas, mas nos tornamos invisíveis quando é para acessar qualquer direito: passar na catraca do ônibus, sentar na poltrona do avião e fechar o cinto,  subir num palco, sentar na cadeira do bar, etc.

A escrita de Roxane Gay é direta, crua, cortante e nos faz sentir mal.  Nos faz encarar nossos piores fantasmas, aqueles que surgem quando somos adolescentes e nos enfiamos em mil dietas malucas para emagrecer sob as vozes que nos gritam o tempo inteiro – gorda assim, quem vai te querer? – e não passam na vida adulta. Não com facilidade. A obra nos faz mergulhar nas nossas próprias dores – a da invisibilidade que nos cerca, por maiores que sejamos, a da não aceitação, a de uma autoestima pisoteada e massacrada diariamente, a de um mundo que não quer que você exista, a de relacionamentos abusivos, porque você acredita que não merece algo melhor.

Por isso – e por várias outras razões – temos um livro urgente e necessário. Urgente, porque quando vi a primeira reportagem sobre, entendi se tratar de um livro sobre uma mulher gorda – e não sobre a “superação” de uma mulher e seu corpo gordo. É um livro necessário porque ele traz o que mais buscamos:  representatividade. Quantos livros você já leu em que a personagem principal é uma mulher gorda e bem sucedida? Quantas novelas você assiste que existem personagens gordas não-caricatas e bem sucedidas? Quantas séries você assiste em que as mulheres gordas protagonizam e não estão o tempo todo tentando emagrecer para ter qualquer tipo de relacionamento sexual? Quantas mulheres gordas e bem sucedidas você conhece? Quantas mulheres felizes você conhece? Quantas mulheres que falam livre e abertamente sobre seus pesos – e não são modelos plus size curvelíneas e sem barriga – você conhece? É basicamente um total de zero. Zero mulheres com estas características porque a gordura nos corpos feministas são vistas como sinônimo de inaptidão social e fracasso, ainda que eu use, diariamente, muito da minha força, para mostrar que não. Não é assim. E isso faz do livro de Roxane Gay necessário.

No entanto, por mais representatividade que eu tenha encontrado nele, e eu encontrei, talvez eu esteja me sentindo um pouco frustrada. Me sinto frustrada porque sei – a cada dia que passa – que a sociedade não avança nas questões ligadas a gordofobia. Sei que existir num corpo gordo todos os dias é uma luta e diferente da Roxane Gay, aceitei, aos 20 poucos anos, que sou gorda. E que sempre serei. E não quero ser diferente. Mas, isso me obriga a lutar o tempo todo para habitar o mundo. Para ser bem sucedida, para trabalhar, para me relacionar, para ter conquistas. O mundo berra 24 horas por dia todos os dias que não podemos/devemos existir e caso teimemos em fazer isso, devemos estar preocupadas em sermos emagrecer, em não comer, em não nos relacionarmos. Devemos estar sofrendo. O mundo não tem lugar para uma mulher gorda e feliz. E é isso que eu sou. É assim que eu existo e teimo. No livro, Roxane traz em vários momentos o corpo gordo como um corpo rebelde. E talvez, seguir existindo no meu seja isso: um ato político de rebeldia. E sim, vou existir gorda e feliz. E é isso que nos difere.  Eu não quero emagrecer. Eu não faço dieta. Eu não como para me esconder. Para dizer a verdade, eu nem como muito. E isso me incomoda também no livro: a autora fala, repetidas vezes, sobre o quanto come, o quanto gosta de comer e que é gorda por isso. Será? Eu não sou gorda pela quantidade que eu como. Claro que isso ajuda. Se eu nunca mais comer nada do que eu gosto e entrar numa dieta desumana, talvez perca alguns quilos. Mas não, obrigada. Não quero. Existe inúmeros fatores que levam uma pessoa a ser gorda. Um deles é o genético, hereditário. Que é o meu caso. O outro é hormonal. E, o terceiro, talvez sejam os hábitos alimentares.  Mas, Deus sabe como é quase impossível explicar isso para uma pessoa que tem por hábito patrulhar o corpo de outrem. Nos dizem, o tempo inteiro, que se pararmos de comer e malharmos, seremos magras.  Nos dizem que estão preocupados com a nossa saúde – sério? sério mesmo? porque não vejo estas pessoas tirando cigarro da mão de amigos, copos de bebidas, carreiras de cocaína. Não as vejo em hospitais infantis de pacientes oncológicos. Não as vejo preocupadas com pessoas doentes de fato. Mas as vejo patrulhando meu corpo e dizendo:  você é doente. Não gente, não sou doente. Tenho exames que provam isso. Não sou preguiçosa. Não sou desleixada. Não sou indisciplinada. Eu sou gorda. E sou saudável. E é melhor aceitar isso, porque não pretendo mudar.

No entanto, o livro me incomoda quando Roxane trata o problema da gordura como algo que ela própria causou, como algo culpável, como algo que precisa ser mudado. Ela pode ser gorda e feliz.  Lógico que isso exige muito. Mas, estar viva aos 42 anos já exigiu muito dela. Por que não subverter o que o sistema quer de você? Eu entendo e reconheço que ela sofreu muito. Bem mais que eu. Eu sofro com cada linha em que ela relata os horrores pelos quais passa por ser gorda, porque são os mesmos que eu passo, mas, não gosto da parte em que ela se odeia. Sinto como se eu devesse me odiar também e aí, a culpa passa pra mim: como eu posso me aceitar e estar em paz com meu corpo gordo? Mas a questão é que dei muito duro para estar aqui hoje e não vou voltar atrás. Não há como retroceder. Vou habitar meu corpo gordo e ser feliz.

“Quando você está acima do peso, seu corpo se transforma num registo público em muitos sentidos. Seu corpo está constantemente em exposição. As pessoas projetam narrativas presumidas em seu corpo e não estão nem um pouco interessadas na verdade dele, qualquer que seja esta verdade” (p. 105)

O trecho acima estava grifado por mim nas páginas do livro porque é um sentimento recorrente. As pessoas se sentem muito livres para falar, tocar e importunar os corpos gordos. Haja vista que até meu muro picharam para me dizer que eu sou gorda, vejam só. Mas, engana-se quem pensa que para por aí. Enquanto eu terminava de ler o livro, uma mulher me pediu amizade no Facebook. Por termos amigas em comum, aceitei. Ela me mandou uma mensagem perguntando se podia usar uma foto minha – em que apareço de biquíni, na esteira de um hotel, à beira da piscina – no mural dela. Eu perguntei: que mural? Ela me mandou um textão que não li, pois precisei sair. Quando retornei à rede social, a minha foto já estava na página dela, acompanhada de outro textão sobre coaching, tv e capitalismo, insultando homens brancos e negros (alô, racismo!) e falando sobre gordofobia. Um texto confuso. A minha foto “ilustrando” o texto, como se eu fosse um plano de fundo de uma praia qualquer no banco de imagens do Windows. Nos comentários, alguém dizia: olha a foto da Jéssica Balbino e a resposta ela: “fiquei doida quando vi pois eu super procuro fotos com corpos plurais, mas pouco encontro”. A mulher é branca, hétero e magra. Por que, raios, ela quer fotos de mulheres gordas? No texto que ela me mandou, reclamava de vestir 44 e não encontrar roupas. Ok. Sei que é uma verdade da pressão estética. Mas, por Deus, isso não é gordofobia. Voltando a foto, ela ilustrava o texto, que não tem absolutamente nada a ver comigo, não representa o que eu penso e foi usada de forma arbitrária e sem esperar por autorização. Esta mulher, que talvez tenha tido a melhor intenção do mundo, talvez não entenda que eu mostrar meu corpo gordo na minha página não signifique que ele é público e possa ilustrar os pensamentos dela. Talvez ela não saiba como foi doloroso o processo que passei para não ter medo de expor meu corpo na beira da piscina e na internet. Talvez ela não saiba disso, mas ela sabe que ele pode ajudá-la a “lacrar” e/ou conseguir mais likes para os próprios textos e que a boa intenção dela é suficiente para ela retirar minha foto sem autorização da minha página pessoal e usá-la, afinal, ela estaria me fazendo um favor sendo magra e falando de gordofobia?! Não, não está. Ela está reforçando tudo que luto contra. Ela está me apagando e silenciando. No texto não havia qualquer menção a pessoa da foto. Eu estava ali, ilustrativa. Isso não é representatividade. É golpe baixo. Eu sou uma pessoa, eu tenho uma história,  eu sofri muito para chegar no resultado daquela foto sem que isso me doa mais. E não, as pessoas não podem usá-la sem autorização, ainda que seja para falar de corpos gordos.

“Gordura, de forma bem semelhante à cor da pele, é algo que você não pode esconder, por mais escura que seja a roupa que você vista ou o quanto você evite listras horizontais. Você pode tentar ficar invisível. Você pode aprender a ser a graça da festa, para que as pessoas estejam tão ocupadas em rir de você, ou com você, que nem notem o óbvio, que nem se concentrem nele. Você pode fazer o que tiver de fazer para sobreviver a um mundo que tem pouca paciência ou compaixão por um corpo como o seu” (p. 105)

E talvez a página 105 seja uma verdade do início ao fim. É assim que pessoas gordas são e se sentem. Mulheres gordas são solitárias, esquecidas, preteridas – e isso não é mimimi, não venha dizer: emagrece que passa – mas realidade. Ninguém nos quer por perto, exceto para divertirmos os participantes da festa, para entretermos com nosso bom humor, já que nosso corpo não é desejável o suficiente.

“Independente do que você fizer, seu corpo estará sujeito ao discurso público de família, amigos e estranhos também. Seu corpo está sujeito a comentários quando você ganha peso, perde peso ou mantém seu peso inaceitável. As pessoas são velozes em lhe oferecer estatísticas e informações sobre os perigos da obesidade, como se você não fosse apenas gorda, mas também incrivelmente imbecil, desatenta e iludida quanto à vigorosa falta de hospitalidade daquele corpo. Esse comentário costuma ser camuflado como preocupação, como pessoas que só tem as melhores intenções, de coração. Elas se esquecem que você é uma pessoa. Você é seu corpo, nada além disso, e é bom que seu corpo seja menos.” 

Esses trechos só mostram como o livro é certeiro. E não poupa ninguém. Por vezes, Roxane é ingrata consigo mesma, mas, em outros momentos, enfia fundo o dedo na ferida – e isso me faz aclamar a obra – sem medo do que vão dizer, porque, verdade seja dita, as piores coisas já são faladas o dia todo, na nossa cara. As pessoas param na rua para te dizer para emagrecer.  Pessoas que você nunca viu se arriscam em rodovias para gritar: GORDA, como se isso fosse uma novidade, um insulto ou te ofender. Pessoas fazem de tudo, menos aceitar que outras podem ser gordas e felizes.

E, ao terminar esta obra, é o que eu desejo, que não apenas eu, Roxane Gay e minhas amigas próximas – e gordas – sejam felizes, mas que encontrem a cura, a fuga, a escapatória para este mar de insultos que é o mundo. E que sejam muito felizes. E satisfeitas com seus corpos. Para que sintam fome e comam. Para que se preencham não só com comida, mas com amor. E desejo que as pessoas entendam que somos nossos corpos, mas não somos só eles. Que gorda não é palavrão. Que repulsa não é preocupação com a saúde e que as ofensas a corpos fora do padrão são uma construção do capitalismo.  Obesidade não é doença. Corpos gordos não são endêmicos. Pessoas gordas, vejam só, são pessoas. Nossos corpos devem ser liberdade e não prisão. Tive muita vontade de conhecer Roxane Gay após terminar o livro. Tive muita vontade de tomar um café com ela e conversar. De agradecer e de discutir sobre o livro. E é isso que eu desejo ao terminar esta obra: que outras mulheres gordas tenham coragem pra falar, pra tocar no que é preciso, para por o dedo na ferida. Desejo que sejamos felizes com nossos corpos. E que mais livros como estes sejam escritos, afinal, desejo também que nos sintamos representadas.

Por fim, vale deixar um vídeo da Roxane Gay no TED:

Resenha | Fome: uma autobiografia do (meu) corpo 
Autora: Roxane Gay
Editora: Globo Livros
Páginas: 190
Avaliação: ****

 

  • Jéssica Balbino é editora do Margens e mulher gorda

1 comentário


  1. Jéssica,
    Lindo o seu texto. Levei muito tempo pra ler. Porque ele é longo e também porque ele é duro e profundo. É um texto que busca construir um mundo melhor. E assim é um texto necessário, que deve ficar. Parabéns!

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