RESENHA: O peso do pássaro morto, de Aline Bei

Chiaroscuro

por Matheus Guménin Barreto* 

O peso do pássaro morto (2017, Editora Nós) – romance de estreia de Aline Bei – deixa nas mãos do leitor, após a leitura, o peso de algo que ele não sabe muito bem nomear, mas que também lhe parece vagamente familiar após tê-lo apalpado durante mais ou menos 150 páginas de vertiginosas linhas de prosa quebrada. O peso do que não se ouve da boca de uma pessoa, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si; o peso do que não se vê nos gestos de uma pessoa, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si; o peso do que não se chega a saber sobre uma pessoa e que morre entalado nela, mas que fazem-na o que ela é, no núcleo mais duro de si.

Em O peso do pássaro morto Bei constrói uma personagem à qual o leitor tem um acesso bastante limitado, por mais que fale ela de si, do que pensa, do que sonha. Parece que Bei constrói sua protagonista com traços fortes e numerosos, mas de fora para dentro, como um mineiro que precisa escavar antes de encontrar seu diamante ou como um pintor que cria um corpo de traços firmes sem desenhar a lápis antes. Os ‘traços fortes e numerosos’ aos quais me refiro são tudo o que a protagonista fala sobre si mesma, todas as pistas que dá. No entanto, mesmo assim o leitor sai do livro com a sensação de não conhecê-la ainda muito bem – exatamente o que ocorre ao se ouvir a história de vida de uma pessoa de carne e osso. Justo nisso parece estar a força da criação ficcional de Aline Bei: na criação de personagens tão assustadoramente vivos que há também espaço neles para o inominável, o inaudito e o vazio que constituem qualquer ser humano. A protagonista se torna, então, a ilustre desconhecida que toda pessoa é. Real como a tia ou a prima ou o conhecido da escola sobre os quais ouvimos sempre falar; mais real, talvez. De qualquer forma, a personagem salta das páginas amareladas que temos em mãos, simultaneamente tão íntima (de) e tão alheia a nós quanto se pode ser.

Aline Bei lançou o livro “O peso do pássaro morto” pela Editora Nós

O poeta Leonardo Antunes escreve o que se segue sobre seu protagonista João (um garoto pobre cujo suicídio é anunciado já no primeiro poema do livro) em João & Maria: dúplice coroa de sonetos fúnebres (Editora Patuá), também publicado em 2017: “[…] Tornou-se assim um símbolo de tudo / que em vida lhe configurara a morte, / ainda que morresse por opção. / / De seu inesperado fim, contudo, / por mais que lhe julgassem sua sorte, / ninguém soube o motivo ou a razão.”

Já no caso da protagonista de Bei, sabemos muito bem quais o motivo e a razão de suas dores. Sabemos que aos 17 anos esse eu trincou de modo irreparável – sem conserto e sem o olhar alheio. Bei parece entender, no entanto, como e onde deitar luz e sombra no eu que cria para sua protagonista; como e onde revelar ou encobrir; de modo que, sabendo “o motivo e a razão”, ainda se sabe muito pouco. Pouco demais. Resta a zona escura, intocável, além de qualquer luz.

Desse chiaroscuro caravaggiano presente até na mais corriqueira das cenas do romance, Aline Bei traça uma personagem envolvida em carne e osso; uma personagem que – arrisco dizer – já tem seu lugar garantido na linha de frente da novíssima ficção brasileira.

Matheus Guménin Barreto (1992, Cuiabá – Mato Grosso) é pós-graduando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs, subárea tradução. Publicou traduções de Ingeborg Bachmann em “Dito ao anoitecer” (2017) e “Lira argenta” (2017), de Bertolt Brecht em “Cântico de Orge” (2017) – parcerias entre Selo Demônio Negro, Editora Hedra e a editora portuguesa Douda Correria. Publicou em 2017 seu livro de poemas “A máquina de carregar nadas” pela Editora 7Letras. É um dos editores da página Ruído Manifesto. Mais em: www.matheusgumenin.com

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