Livros escritos por mulheres que inspiraram 2017

Conheça os livros escritos por mulheres e que inspiraram poetas, escritores, professores, jornalistas e leitores em 2017

“Nós não acreditamos em listas, mas que elas existem, existem”. Por isso, inspirado por listas participativas dos “melhores livros de 2017” como as do Livre Opinião, O Povo e Suplemento Pernambuco, o Margens convidou jornalistas, editores, curadores e poetas para indicarem as três melhores leituras do ano, escritas por mulheres.

O levantamento traz participações de autores como Lâmia Brito, Maria Giulia Pinheiro, Luiza Romão, Elizandra Souza, Tadeu Rodrigues, de professores e escritores como Susana Ventura, Lívia Natália, de curadores de festivais como Joselia Aguiar (da Flip) e Gisele Corrêa Ferreira (do Flipoços), de editores de sites, como Jorge Ialanji Filholini, Isabel Costa, Estela Rosa, de editores como Daniel Minchoni (selo doburro) e Eduardo Lacerda (editora Patuá), de livreiros como a Ketty Valencio (livraria Africanidades), Leo O´Bento (Iná Livros), entre outras personalidades que foram questionadas sobre as melhores leituras do ano.

A lista não leva em consideração o ano da publicação, mas da leitura dos livros e da importância deles para quem os leu.  A lista também é livre e cada pessoa a fez de um jeito, com ou sem considerações, mas muita contribuição nessa construção coletiva de literatura. A pergunta chave foi: quais os livros escritos por mulheres que você leu em 2017 e que te deslocaram e inspiraram?

A lista mostra também que o favorito do ano é o livro Sangria, da Luiza Romão, publicado pelo selo doburro.  Seguido por ele, o que mais aparece é o todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito, também do selo doburro. Em terceiro lugar, o aguardadíssimo tudo nela brilha e queima, da Ryane Leão, que saiu pela editora Planeta.

Outra autora que segue figurando entre as mais citadas e lidas é a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que possui seis livros traduzidos para o português. Acompanhada por ela, a indiana radicada no Canadá, Rupi Kaur, com “outros jeitos de usar a boca” – e que dialoga bastante com as poesias de Lâmia Brito e Ryane Leão – também foi bastante mencionada na lista.

Confira as indicações:

  • Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, de Jarid Arraes (Pólen)
    Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.


     

     

  • Manual da Faxineira,  de  Lucia Berlin (Companhia das Letras)
    Lucia Berlin teve uma vida repleta de eventos e reviravoltas. Aos 32 anos, já havia vivido em diversas cidades e países, passado por três casamentos e trabalhado como professora, telefonista, faxineira e enfermeira para sustentar os quatro filhos. Lutou contra o alcoolismo por anos antes de superar o vício e tornou-se uma aclamada professora universitária em seus últimos anos de vida. Desse vasto repertório pessoal, Berlin tira inspiração para escrever os contos que a consagraram como uma mestre do gênero. Com a bravura de Raymond Carver, o humor de Grace Paley e uma mistura de inteligência e melancolia, Berlin retrata milagres da vida cotidiana, desvendando momentos de graça em lavanderias, clínicas de desintoxicação e residências de classe alta da Bay Area.


     

     

  • Kindred – Laços de Sangue, de Octavia Butler (Morro Branco)
    Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça. Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo. Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado. “Impossível terminar de ler Kindred sem se sentir mudado. É uma obra de arte dilaceradora, com muito a dizer sobre o amor, o ódio, a escravidão e os dilemas raciais, ontem e hoje” – Los Angeles Herald-Examiner


  • Oito do Sete, de Cristina Judar (Reformatório)
    Nada é por acaso na literatura que reaviva a aventura humana e, por isso, nos encanta. “Oito do sete”: eis, não por acaso, a data que marca o enredo desta bela estreia de Cristina Judar no romance. Não por acaso o dia é oito, número do infinito. Não por acaso o mês é julho, o sétimo do ano. Não por acaso vamos nos inteirando da trama pelos fragmentos narrados por quatro vozes distintas: duas amantes (Magda e Glória), um anjo (Serafim) e uma cidade (Roma). Não por acaso Magda e Glória se entregam a uma relação hétero com Rick e Jonas. Nem por acaso elas se veem como cisternas e os homens como torres. E, não por acaso, aqui os homens são embarcações; as mulheres, terra para que se afundem. Também não por acaso, neste livro, o sentimento é mar; a emoção é onda. Uma obra estruturalmente engenhosa, de alta voltagem lírica e primoroso labor com a linguagem. Não por acaso estão ausentes de suas páginas as artimanhas e facilidades da literatura monocromática que se tornou hegemônica entre nós. Não por acaso esta escritora, que já havia nos dado o sensível volume de contos “Roteiros para uma vida curta”, revela igual domínio na arte da prosa longa. “Oito do sete”, de Cristina Judar: não por acaso uma história que desafia você, leitor, a sair de seu raso e saltar para o abismo de uma escrita (felizmente) inquietante.
  • O peso do pássaro morto, de Aline Bei (Nós)
    Em “O peso do pássaro morto”, acompanhamos uma mulher que, dos 8 aos 52 tenta, com todas as forças, não coincidir apenas com a dor de que é feita. Um livro denso e leve, violento e poético, “simultaneamente claridade de vidro e ponta aguda de faca”, diz- -nos a orelha de Micheliny Verunschk. Afiado, O peso é feito de palavras e do vazio que elas desenham na página. No silêncio, no corte, o livro comprova que a dor e a poesia estão nos detalhes. Não poderia ser de outro jeito um livro que nasce com a morte de um canário, nas mãos, “minha mãe pediu pra cortar a unha dele. E ele morreu, de susto”, conta Aline. A morte vive em cada palavra d’O peso, onde vive também Aline, paulistana de 1987, formada em Letras e em Artes Cênicas, editora e colunista do site cultural OitavaArte. O peso do pássaro morto e ela se tocam, sobretudo, em um jeito de ver o mundo, “sem querer entender tanto”. Em dias tão pouco propensos ao feminino, o romance de Aline Bei dá corpo a uma coleção de dores sobre a força e a solidão de ser mulher, hoje.
  • Morri por Educação, de Nathalie Lourenço (Oito e Meio)
    “Este livro que o leitor agora tem em mãos e começa a folhear é também sobre a tragicomédia da vida. Situações indizíveis, pensamentos peculiares, algo de intensamente triste, algo de intensamente lírico. Há um realismo chão e há, irmanada, uma possibilidade quase mística de encanto pelo outro. O trejeito. O desalinho. Encontra-se aqui a lágrima pretendida e um fundo de dor em cada gargalhada. E como há gargalhadas. E como há lágrimas. Nathalie Lourenço traz tudo isso à tona. Seus personagens estão sempre a nos lembrar o tanto que temos de um pouco ridículos. E de um pouco bonitos. Apesar de ser um livro de estreia, Morri por educação já nos apresenta uma escritora experiente, segura do que as suas histórias têm para contar e hábil para nos conduzir pela leitura. Provável fruto de uma longa trajetória escrevendo crônicas, poemas e contos, publicados em revistas literárias, antologias, sites e blogs variados. É emblemático em seu texto, assim como nesse livro, o dom que Nathalie tem para extrair intensidade da minúcia. Um mobiliário inusitadamente decorado, um vestuário mal-ajambrado, algum hábito ou vício, uma indisfarçada reação inconsciente, um apelido, ou mesmo um pequeno animal de estimação. Estes, e tantos outros, podem parecer meros detalhes, mas o leitor atento perceberá que aqui eles ganham uma vida nova, ajudam-nos a ler o mundo, e se tornam verdadeiros personagens coadjuvantes de cada um destes dezessete contos desconcertantes. A grande força, a estupenda e inconfundível beleza dos contos de Nathalie Lourenço está, portanto, nessa oferta inseparável de tristeza e riso, dor e alegria, choro e prazer. Finalista da Maratona Literária, Morri por educação já estreia premiado, quem sai recompensado é o leitor.” – Leandro Jardim
  • A coisa à volta do seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie (Dom Quixote, edição portuguesa)
    Depois de Meio Sol Amarelo (Orange Prize 2007) e A Cor do Hibisco (Commonwealth Writers’ Prize 2005), Chimamanda Ngozi Adichie regressa com doze histórias protagonizadas por heroínas memoráveis. Divididas entre dois continentes – África e América -, estas mulheres lutam por um lugar e uma identidade no mundo moderno mas também pela preservação dos valores da sua cultura de origem. Quer vivam no inferno de um país como a Nigéria ou num subúrbio aparentemente calmo dos Estados Unidos, elas não têm uma vida fácil. As ameaças que enfrentam podem ter origem na guerrilha ou no funcionamento de um forno microondas mas os seus dilemas contêm toda a história de um continente.
  • Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia (Record)
    “Esta obra de Ana Paula Maia será lembrada como um instante de alta voltagem literária que desloca seu leitor de algum lugar confortável.” – Marcia Tiburi.
    Uma colônia penal isolada – um terreno com um histórico tenebroso de assassinato e tortura de escravos –, construída para ser um modelo de detenção do qual preso nenhum fugiria, torna-se campo de extermínio. Espécie de capitão do mato/carcereiro, Melquíades é o algoz dos presos, caçando e matando-os como animais, apenas por satisfação pessoal. Os presos, cada qual com sua história, estão sempre planejando a própria fuga, sem saber se vão acabar mortos pelos guardas ou pelo que os espera do lado de fora da Colônia.
  • Mulheres Sagradas, de Aidil Araújo Lima (eBook Kindle)
    Um mundo sagrado, de equilíbrio, paz, alegria se contrapõe a vida que aí se mostra, cheia de conflitos, buscas insanas. Essas mulheres nos revelam como ser inabalável diante das lutas que se apresentam dia a dia. Elas caminham com ânimo, sustentadas pela reverência aos elementos da natureza, ao mundo sagrado.
  • Maravilhas banais, de Micheliny Vernuschk (Martelo Casa Editorial)
    o amor / que o meu corpo / atravessa / pousa somente / no corpo que vislumbro”. além de uma declaração apaixonante de amor, “maravilhas banais” é uma maneira de olhar o humano pela via do humano e transportar pelos tempos uma tortura feminina, historicizando-a dentro de uma visão dinâmica, que busca em momentos ignorados as contradições da situação “romã” – o amor feminino e suas torturas, falando ao mundo do modo como lhe é permitido por cada momento. este volume 12 da coleção cabeça de poeta, série contemporanea (dedicada à produção de poesia brasileira a partir do século 20), celebrando o amor – ou as formas prováveis / possíveis de amor a partir daquilo que é seu mais duro, para alcançar a sua seiva: o seu tutano – celebra, antes de mais nada, uma espécie de resistência; e resistência, por assim dizer, é preservar a vida humana contra seus impulsos de (auto)destruição. é preservar da loucura desmedida os relances de sanidade que nos restam e, portanto, uma serenidade. em seu novo livro de poemas, Micheliny Verunschk se arrisca mais ainda na concisão, na lição do condensamento. uma poeta que sabe que “ademais é preciso obsessiva / e repetidamente / é preciso escrever o teu nome novamente”.
  • deve ser isso, de Michele Santos (independente)
    Experimento poético a partir dum verso dum poema da poeta Matilde Campilho. Tornado em livreto artesanal pelas mãos, coração e voos de Michele Santos.
  • Sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    Sangria é o segundo livro da poeta Luiza Romão e revisita a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. O livro tem edição bilíngue (português e espanhol) e o prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda.
  • se do meu púbis nascessem asas & outros poemas, de Geruza Zelnys (editora oitoemeio)
    “Se dessa orelha nascessem asas, e se elas batessem e voassem, essa orelha não sobrevoaria, mas, ao contrário, esbarraria em rostos, arrebataria corpos, orelhas que ouvissem, olhos que lessem. Pois este “se do meu púbis nascessem asas” e estes outros poemas parecem fazer muitas coisas incríveis com as palavras que falam ou escrevem. Parecem poder esticá-las e praticá-las de outro modo. Inscrevem-nas sobre os ossos e sobre a pele, mas também nas partículas do ar e da água. Decalcam-nas. E apesar da marca funda, as palavras, ainda assim, falam outra língua, arranham (outr)a linguagem, tamanha a potência da sua textura.

    Estes poemas alados possuem nadadeiras e transformam Geruza num ciborgue que habita nossa Terra ainda tão cheia de chances. Uma deusa d(a/á) esperança: a esperança que habita o novo som e as entranhas ainda não tocadas do planeta, a esperança que sentimos nos ciclos dos quais as flores são atores. Todo o planeta vive neste livro, mas, principalmente, este é um livro natural, onde palavras nascem, crescem e produzem. É um livro sobre a vida e suas intensidades. E é, então, como esses pequenos milagres do cotidiano, um livro não para ser lido, mas para viver.”

  • coração despovoado, de Débora Arruda (Chita Cartoneira)
    sem sinopse
  • Periférica, de Kika Sena (padê editorial)
    sem sinopse
  • Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur (Planeta)
    Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume.
  • eu preferia ter perdido um olho,  de Paloma Amorim (editora Alameda)
    Eu preferia ter perdido um olho , o mais novo lançamento da editora Alameda, nasceu da reunião dos textos publicados por Paloma Franca Amorim no jornal paraense OLiberal.

Listei livros lançados em 2017 e que de alguma forma quando li dialogaram fortemente comigo e a arte que eu acredito, transformadora. Não sou capaz (e nem quero agora) traçar opiniões sistematizadas sobre cada um, mas certamente os recomendo ao mundo, para que cada pessoa dialogue com as obras e sinta os próprios ecoares após isso feito.

  • Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, de Jarid Arraes (Polén)
    Jarid Arraes nos envolve, nos ensina e descortina a invisibilidade histórica de mulheres negras cujas vidas, ensinamentos e histórias nos foram sonegadas. A maneira bela como Jarid Arraes nos convida à reflexão revela a maestria de sua escrita. É um livro urgente, pungente e necessário para que nós mulheres brancas reconheçamos nossos privilégios e entendamos um pouco da luta histórica de mulheres negras.
  • Sangria, de  Luiza Romão (selo doburro) 
    A minha impressão é que eu esperava há tempos por esse livro, por esses poemas, por essa narrativa feminina e poderosa. Como a autora mesmo diz, é a história do país contatada pela ótica do útero e, para mim, não há nada mais belo que isso. A combinação dos poemas de Luiza com as fotos do Sérgio Silva trazem uma experiência sensorial diferente em que o corpo feminino está no centro do debate.
  • O Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici,  tradução do Coletivo Sycorax (Elefante) 
    Fiquei na dúvida se colocava esse livro aqui, por que é de teoria. Entretanto o empenho do Coletivo Sycorax em trazer essa obra tão importante para o Brasil precisa ser exaltado. O livro descortinou questões muito importantes pra mim, tirou um véu dos meus olhos e me ajudou a ver o mundo de outra maneira. Traz um apanhado histórico a respeito de como o capitalismo se apropriou do corpo feminino para construir as bases das estruturas e relações patriarcais.
  • “Niketche: uma História de Poligamia”,  de Paulina Chiziane (Companhia das Letras)
    Casada com Tony há vinte anos, Rami descobre que o marido tem várias mulheres em outras regiões de Moçambique. Paulina Chiziane, primeira moçambicana a publicar um romance, combina humor e lirismo neste retrato da cultura moçambicana tradicional e das relações entre homem e mulher num país em que a poligamia é um costume arraigado.

  • Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adchie  (Companhia das Letras) 
    Em meio à guerra fratricida que dividiu a Nigéria com a malograda tentativa de fundação do estado independente de Biafra, um grupo de pessoas busca provar a si mesmas e ao mundo que é capaz não só de sobreviver, mas também de resguardar seus sonhos e sua integridade moral. Garoto de aldeia, Ugwu procura se ajustar a uma realidade em rápida transformação. Olanna é uma moça da alta sociedade que se torna professora universitária e vive com Odenigbo, que abraça a causa revolucionária. Jornalista com ambição de se tornar escritor, Richard se apaixona pela irmã de Olanna, Kainene, figura esquiva, que reage com pragmatismo ao desmoronamento da nação. Baseado em fatos reais transcorridos na década de 1960, este romance da premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie vai além do mero relato, transformando- se em um grandioso painel sobre indivíduos vivendo em tempos de exceção, um livro que a crítica internacional aproxima de V. S. Naipaul, Chinua Achebe e Nadine Gordimer.
  • A louca do serrano, de Dina Salústio (Spleen Edições)
    Para Júlia, uma mulher louca que me amou mal eu tinha vivido, essa loucura de não poder esquece-la” é a dedicatória no início do romance que adverte o leitor que vai ao encontro de uma história diferente.

O que notei em comum nessas 3 obras são 3 pontos:

  1. a angustia de uma questão individual se transformar em uma resolução coletiva, principalmente em termos de colonização dos países africanos e os costumes que foram corrompidos e/ou deturpados em prol do desenvolvimento e exploração dos países em que as obras das autoras se localizam;
  2. o pano de fundo das histórias dos 3 livros foram fatos reais, embora os personagens sejam fictícios eles são afetados pelos acontecimentos políticos, econômicos e sociais. No “Meio Sol Amarelo” Chimamanda trata de pano de fundo de seu romance da secessão de Biafra na Nigéria com maestria, e essa secessão aconteceu de fato; no “A Louca de Serrano” realmente houve as problemáticas das barragens em diversas cidades em Cabo Verde; e a confusão colonial e cristã implantada nas formas de se relacionar em Moçambique na obra “Niketche: uma história de poligamia” da Paulina Chiziane;
  3. Todas essas obras descrevem sentimentos com uma graciosidade e humanidade que é um afago no peito, os personagens das histórias são muito bem construídos e suas emoções são muito bem colocadas. E os personagens são muito importantes nessas obras, porque mostra para as leitoras e leitores diversas perspectivas sobre os panos de fundo que as autoras colocam na história, por exemplo, em “Meio Sol Amarelo” são 3 narrativas sobre a secessão de Biafra: a de 2 mulheres de uma família de elite na Nigéria, a de um empregado que mora em aldeia e a de um branco inglês;Acho que essas são as principais similaridades das 3 obras, embora as histórias e temas sejam diferentes e cada autora trata a sua forma e tenha suas especificidades, esses livros são muito bons espero que gostem da leitura.
  • Calibã e a Bruxa – Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, de  Silvia Federici. (Editora Elefante)
    As acadêmicas feministas desenvolveram um esquema interpretativo que lança bastante luz sobre duas questões históricas muito importantes: como explicar a execução de centenas de milhares de “bruxas” no começo da Era Moderna, e por que o surgimento do capitalismo coincide com essa guerra contra as mulheres. Segundo esse esquema, a caça às bruxas buscou destruir o controle que as mulheres haviam exercido sobre sua própria função reprodutiva, e preparou o terreno para o desenvolvimento de um regime patriarcal mais opressor. Essa interpretação também defende que a caça às bruxas tinha raízes nas transformações sociais que acompanharam o surgimento do capitalismo.
  •  Feito Vértebras de Colibris, de Patrícia Hoffmann (Mariana Edições)
    Primeiro livro de poesias da autora, sem sinopse
  • Gilka Machado – Poesia Completa,  organização de Jamyle Rkain (Selo Demônio Negro)
    Gilka Machado, poeta e ativista política, é considerada como a primeira mulher a publicar poesia erótica no Brasil e única autora a fazer parte do Simbolismo. Na política, foi ativista pelo voto da mulher e uma das fundadoras do primeiro partido político feminino, em 1910. Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira. Publicada nos anos 1960, sua obra completa agora é relançada pelo selo Demônio Negro com a organização de Jamyle Rkain.
  • Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo (Editora Pallas)
    A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado.
  • Mugido , de Marília Floôr Kosby (Coletivo Garupa)
    Em fazendas da região do pampa, no Rio grande do Sul, mulheres são tão silenciadas quanto os animais de criação, e seus corpos, objetificados e explorados. Essa poderia ser a sinopse de um livro distópico de Margaret Atwood. Na verdade, é o tema de Mugido (editora Garupa, 2017), livro de poemas de Marília Floôr Kosby, que traz uma representação inédita do meio rural gaúcho machista e misógino, cultuado pelo tradicionalismo e pela mídia tradicional.
  • O peso do coração de um homem, de Micheliny Verunschk  (Editora Patuá)
    Logo no início deste livro, o narrador, um menino então sem nome, constata: “morar perto do fim do mundo é morar longe, perto de nada, numa terra sem país”. O impactante parágrafo de abertura determina os matizes que vão se espalhar da primeira à última palavra do romance. O pôr do sol e a poeira das estradas que a civilização tarda a percorrer têm cor de sangue num Brasil de feridas abertas, de instituições de fachada, verdadeira terra sem país.
    Na trama, dois meninos são tirados à força da família por conta de uma antiga e misteriosa rivalidade, levada a cabo, como sói acontecer, de forma brutal e às margens da lei. Na casa de seus captores, são bem tratados e ganham pela primeira vez nomes próprios: Cristóvão, o narrador, Gonçalo, o caçula. É a memória dessas violências que vai converter o mais velho num assassino juvenil capturado pela polícia, apresentado no romance anterior da autora, Aqui, no coração do inferno.
    Um mundo muito pobre de palavras e gestos, como o narrador o descreve — fazendo lembrar os grunhidos animais de Fabiano e Sinhá Vitória, de Vidas secas —, permite que as pessoas prescindam de nomes. O menino percebe, sem o saber, na linguagem a lâmina que retalha o corpo do mundo e condena ao isolamento elementos até então indistinguíveis: “como se as coisas indefinidas não pudessem ter existência de verdade”.
    Nesse mundo, nomear talvez signifique justamente condenar. “Mãe era mãe. Corália era nome de morte”. Assim como fizeram com sua mãe, para ser capaz de se vingar Cristóvão precisa antes dar nome a assassina dos pais: Abutra.
    É nesse ponto em que o peso do ato de nomear é flagrado que a literatura de Micheliny se dá a ver em toda a sua grandeza. A percepção do poder criador (e destruidor) da palavra, constitutiva de toda boa literatura, está presente na premiada trajetória da autora como poeta e prosadora. Essa consciência possibilita que, numa trama de vingança, repleta do suspense e da ação que fazem o leitor ansiar pela próxima página, descortinem-se também, sem sociologismos, as mazelas de um país que se urbanizou, mas nunca deixou de ser regido pelos costumes dos grotões mais violentos.
    “O peso do coração de um homem não é diferente do peso do coração de qualquer animal”, conclui o menino, já hábil no catecismo da morte. Quem determina esse peso é a linguagem. E, no trabalho com a linguagem, é válida outra de suas descobertas no trato com as vítimas: “passar a faca tem outro tipo de exatidão”. É com essa exatidão que a autora dispõe as palavras nesse belo e poderoso romance.
  • O caderno das inviabilidades, de Eliza Caetano  (Editora Urutau)
    “se eu te disser quem sou, sou a dor nos ombros
    observe os pontos cardinais
    sempre em frente, entre os dedos, você vai achar meus cabelos
    são pretos
    alguns brancos
    se eu te disser quem sou, sou em círculos.”
  • o vivo em Goiânia: quatro contos de patroa, de Seane Melo (Amazon)
    Ao vivo em Goiânia: quatro contos de patroa é uma deliciosa brincadeira literária com músicas de feminejo presentes no dia a dia do brasileiro. Neste livro, Seane Melo aceita o desafio de se apropriar das letras sertanejas e fazer sua própria releitura em em quatro contos com boas doses de erotismo. Jogando com o dito e o não dito, a autora dá corpo e voz a algumas das histórias possíveis a partir das letras das canções.
  • Dororidade, de Vilma Piedade (Editora Nós)
    Não é só sororidade, é Dororidade, diz-nos Vilma Piedade. Aqui, ela luta com palavras: o que é, afinal, Dororidade? O que este conceito aprofunda no diálogo feminista? Vilma Piedade desenvolve, com sua força, com sua militância e com seu estilo autêntico, legítimo Pretoguês, um conceito que nasceu de sua intuição e se espalhou amplamente, tornando-se necessário. Será possível construir o Feminismo Interseccional Inclusivo? Não sem todos os tons de Pretas. Não sem compreender o que é Dororidade.
  • A estação das sombras, de Leonora Miano (Pallas)
    A obra A estação das sombras, de Léonora Miano, premiada em 2013 com o Prix Femina na França, chega ao Brasil com tradução de Celina Portocarrero e edição da Pallas editora. O romance conta a história da tribo Mulongo como protagonista do enredo sobre o tráfico negreiro e a dizimação dos povos na costa Africana no século XVI. É um romance forte e emocionante e realista pois se baseia em um relatório da UNESCO entitulado “A lembrança da captura”, de 2010, que procura resgatar uma memória do tráfico Transatlântico.

  • Troca, de Thata Alves (independente)
    A obra surge com o intuito de trocar não apenas as poesias, mas olhares sobre questões cotidianas adormecidas ou naturalizadas.  Conforme a autora é uma análise da importância da ancestralidade da mulher para encarar alguns elementos de forma panorâmica.
    O livro tem 50 páginas tem prefácio de Tokinho Carvalho e  traz um olhar sobre o feminino ancestral, com poesias surgem para ela como um estado de espírito. Assim, o livreto é baseado nas experiências adquiridas por Thata Alves a partir das próprias vivências e de estudos sobre a diáspora africana.
  • Claviculário,  de Anna K Lima (Substânsia) 
    Gestado durante dez anos, o livro da escritora cearense Anna K Lima tem fogo, água, terra e elementos ainda não descobertos. É sublime. Uma das leituras que mais me deixou fora do eixo nos últimos anos. O livro saiu em junho de 2017 pela Editora Substânsia e ganhou uma nova edição do Selo Editorial Aliás.
  • Quando vieres ver um banzo cor de fogo, de Nina Rizzi (Editora Patuá) 
    Nina é uma das poetas mais certeiras que conheço. Em 2017, ela veio com Quando vieres ver um banzo cor de fogo. Livro publicado pela Editora Patuá, tem tanta força que – às vezes – me deixa sem reação. Nina é conhecida por seu significativo trabalho com oficinas de escrita criativa para mulheres.
  • Mensagens enviadas enquanto você estava desconectado”, de Raisa Christina (Substânsia)
    O livro foi lançado em 2014, mas, nesse ano, ganhou uma notoriedade na cena literária cearense. Raisa é dona de uma escrita certeira. Sabe chegar aos corações. E, para além da palavra, o livro tem ilustrações incríveis feitas por ela, que também é uma excelente artista visual. 
  • O peso do pássaro morto, de Aline Bei (Nós)
    Este livro foi a surpresa que eu tive esse ano. Aline Bei escreve um romance em verso e a forma que ela narra a história é muito potente e sutil ao mesmo tempo. Já gostava muito dos textos soltos que ela posta na internet, e agora ver seu trabalho concretizado neste livro tão bem escrito é de se admirar e elogiar.
  • Buraco, de Pam Araújo (independente)
    o livro de Pam Araújo tem só 48 páginas, mas a gente encontra uma força quase que sobrenatural em cada uma delas. Todo na perspectiva de uma mulher (a avó, a mãe, a filha, a amiga…), cada poema evoca o poder que existe em ter um vácuo no meio das pernas. Sobre mulheres e seus buracos, sobre ser sagrada e ser livre.
  • Sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    Luiza Romão amadureceu tanto desde seu primeiro livro que parece até outra pessoa. Em Sangria, ela está armada. Coloca as palavras a serviço de protesto e nos faz analisar uma história (do Brasil) contada por uma mulher, por um útero, por uma voz que não consente e não compactua com os fatos como são nos mostrados e repassados  diariamente.
  • Sem Gentileza, de Futhi Ntshingila (Dublinense)
    Este é um romance forte, sobre mulheres fortes, determinadas a seguir seus próprios princípios. Futhi Ntshingila – autora sul-africana de origem Zulu – levanta sua voz com uma espécie de realismo místico no qual os espíritos ancestrais ainda são capazes de modificar o mundo. Em uma narrativa polifônica que se multiplica ao avançar, Sem gentileza nos permite conhecer mais de uma mulher, mais de uma África e mais de um tempo, num mosaico construído com coragem.Em meio ao apartheid, nos guetos da África do Sul, mãe e filha precisam sobreviver em um ambiente marcado pela pobreza e pelo medo da aids. Este romance traz uma história de superação de cruéis adversidades, mas também conta a trajetória de libertação pessoal de uma mulher orgulhosa e de uma menina que se torna adulta cedo demais. Diante de uma sociedade machista que tenta anular suas existências, Zola e Mvelo lutam para que suas vozes sejam ouvidas.
  • A coisa à volta do seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie (Dom Quixote, edição portuguesa)
    Depois de Meio Sol Amarelo (Orange Prize 2007) e A Cor do Hibisco (Commonwealth Writers’ Prize 2005), Chimamanda Ngozi Adichie regressa com doze histórias protagonizadas por heroínas memoráveis. Divididas entre dois continentes – África e América -, estas mulheres lutam por um lugar e uma identidade no mundo moderno mas também pela preservação dos valores da sua cultura de origem. Quer vivam no inferno de um país como a Nigéria ou num subúrbio aparentemente calmo dos Estados Unidos, elas não têm uma vida fácil. As ameaças que enfrentam podem ter origem na guerrilha ou no funcionamento de um forno microondas mas os seus dilemas contêm toda a história de um continente.
  • A mulher dos pés descalços, de Scholastique Mukasonga (Editora Nós)
    As obras de Scholastique Mukasonga são uma mortalha de papel para aqueles que não têm sepultura. O romance A mulher de pés descalços foi escrito em memória de Stefania, a mãe da escritora Scholastique Mukasonga, assassinada pelos hutus, durante a guerra civil de Ruanda. Às lembranças de um paraíso perdido, onde Stefania era uma senhora alegre e casamenteira, que dava conselhos às moças em torno do amor e da vida matrimonial, se mesclam imagens terríveis, como o medo constante e busca de esconderijos seguros para salvar seus filhos do extermínio.
  • Esmeralda – por que não dancei, de Esmeralda do Carmo Ortiz (Ática/Senac)
    ‘Esmeralda: Por Que Não Dancei’ é o depoimento de quem esteve nas ruas desde os oito anos , convivendo com a violência, as drogas e a indiferença. É mais ainda: é o roteiro de seu renascimento, da construção da sua auto-estima, da recuperação da dignidade de um ser humano. O Senac de São Paulo, em sua missão de propiciar meios e modos de transformação das pessoas pelo aprimoramento deste relato, que mostra ser tudo possível quando o objetivo é ajudar pessoas ainda com força para ajudar a si mesmas.
  • Terra Fértil, de Jenyfer Nascimento (Mjiba)
    Desafiando os padrões impostos, a poeta pernambucana fala sobre amor, cidade, diferenças sociais e orgulho da própria origem nas 170 páginas da obra que teve a organização de Carmen Faustino e Elizandra Souza,  o projeto gráfico de Nina Vieira e a
    ilustração de Lucimara Penaforte.
  • Sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    Sangria é o segundo livro da poeta Luiza Romão e revisita a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. O livro tem edição bilíngue (português e espanhol) e o prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda.
  • tudo nela brilha e queima, de Ryane Leão (Planeta)
    Livro de estreia de Ryane Leão, mulher negra, poeta e professora, criadora do projeto onde jazz meu coração, com mais de 150 mil seguidores nas redes. “a poesia é minha chance de ser eu mesma diante de um mundo que tanto me silencia. é minha vez de ser crua. minha arma de combate. nossa voz ecoada. nossa dor transformada. nela eu falo sobre amor, desapego, rotina, as cidades que nos atravessam, os socos no estômago que a vida dá, o coração desenfreado, a pulsação que guia as estradas, os recomeços, os dias, as noites, as madrugadas, os fins, os jeitos que a gente dá, as transições, os discos, os tropeços, as partidas, as contrapartidas, os pés firmes que insistem em voar, e tudo isso que é maluco e lindo e nos faz ser quem somos.”
  • Depressões, de Herta Müller (Globo Editora) 
    Há uma grande e amarga ironia histórico-literária que emana de autores como a romena naturalizada alemã Herta Müller, a consagrada autora dos contos de Depressões. Se, de início, em obras como Robison Crusoe, de Daniel Defoe, a então nova prosa de ficção ainda podia louvar o herói capitalista, empreendedor e individualista, pouco depois, já a partir da Revolução Francesa e das jornadas revolucionárias do século XIX, a prosa de ficção se torna, como nos grandes autores russos e, principalmente, no naturalismo e no realismo, em Flaubert como em Zola, a forma por excelência de “desconstrução” crítica da sociedade burguesa. Sociedade burguesa que o socialismo da Romênia natal de Herta Müller deveria sepultar, sepultando assim, de roldão, a arte crítica, que passaria então a ser arte “revolucionária” ou “popular”. Mas, como se sabe, as coisas não saíram conforme planejado. Daí as obras de autores como Pasternak, Soljenítsin, Kertész – e Herta Müller. Se há em Müller ecos de Brecht, de Kafka, de Beckett, a sociedade que ela “desconstrói” – ainda que não explícita ou diretamente – é, porém, socialista. Por um lado, isso serve para reforçar, através da arte, o que a história e a política já decretaram: a falência do chamado “socialismo real”, apesar dos não-eventuais saudosistas. Por outro lado, demonstra que a literatura, em que pese o reinado da cultura de massa, ainda tem muito a dizer sobre a dimensão política da condição humana. Por exemplo, que a velha e persistente questão entre pão e liberdade (capaz de levar defensores do regime cubano a ainda o apoiarem em nome da oferta de “pão”, apesar da desoferta de liberdade), é uma falsa questão: pois nem só de pão vive o homem. E se a miséria no sistema liberal capitalista torna a liberdade uma falácia, a opressão nas ditaduras de todas as cores torna o pão insuficiente. A realidade, enfim, é mais complexa do que pretende a vã ideologia. Daí ainda precisarmos de escritores como Herta Müller.
  • De passagem, mas não a passeio, de Dinha (Global Editora)
    Dinha fez uma trincheira de palavras, mas uma trincheira lírica. E a estratégia de dar passagem aos seus gritos sem que ninguém a detivesse, autorizasse, percebesse e atingisse, sai vitoriosa.
  • Para educar crianças feministas – um manifesto, de Chimanada Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
    Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.
  • DILUVIO MUNDO [UMA ARCANA JORNADA], de Natalia Amoreira (Editora Uratau)ela virá vestindo veludo escuro manto bordado
    com pelo felpudo fino couro de mil mariposas
    armazenadas em potes, potes e mais potes,
    olhos e estômago nas costas,
    como uma raposa farejando os restos,
    ganindo fora da sua barraca.olhe ela lá.
  • Histórias de Minha Morte, de Maya Falks (Quatrilho Editorial)
    Dizem que a morte é o fim de tudo. Para Leandra, foi apenas o começo. Poucas coisas são mais sutis do que o suspiro final. O inevitável destino do qual ninguém escapa encontrou Leandra aos 25 anos em uma manhã de sábado. Foi simples assim, em um minuto ela respirava, no outro não. Ela estava morta, mas não apenas isso, ela estava morta no chão da cozinha, com a blusa levantada e os olhos abertos, como se a morte zombasse de sua fragilidade humana. Indefesa diante de uma nova realidade, Leandra se vê jogada de volta aos piores momentos de sua vida, revivendo traumas e dores para poder enfim encontrar a paz.
  • Aos amores que matei, de Marina B. Laurentiis (editora Uratau)
    eu urrava de dor enquanto você passava o café quase no automático quase sem perceber queimando a minha mão. sua boca me olhava com os dentes arreganhados e não tinha ouvidos, não tinha. era só o café caindo quente, era só uma poça na pia. tira de mim esse pedaço de carne, essa ferida aberta que é meu coração. dei um gole e não soube mais onde era a porta. nenhum letreiro indicava a saída. meus dedos tatearam as paredes vermelhas, parecia sangue, não era.
  • O martelo, de Adelaide Ivánova (Garupa)
    Adelaide Ivánova nasceu em 1982 na cidade de Recife. Jornalista, poeta, tradutora e fotógrafa, seu trabalho percorre o mundo em publicações impressas e digitais como i-D (UK), Colors (Itália), Te Hufngton Post (EUA), Modo de Usar & Co. (Brasil), Suplemento Pernambuco (Brasil) entre outras. “O Martelo” é seu terceiro livro de poemas. Sua edição brasileira lançada pelo Edições Garupa em 2017 traz um aparente formato padrão e surpreende o leitor com uma fina camada de tinta vermelha que cobre a capa sujando suavemente as mãos de quem o encosta. Dividido em duas partes, o livro se destaca da atual poesia brasileira ao assumir uma voz verdadeiramente feroz e não temer tratar assuntos cortantes. Nas palavras de Carol Almeida, autora do posfácio: “É chegada a hora de soltar o verbo e o gozo de dizer o que precisa ser dito do jeito que precisa ser dito, ou de como estupro é estupro, trepada é trepada e literatura é sentir na pele o peso das palavras”.
  • Joyce Viana
  • Pietra Sousa
  • Rosa LuzKika Sena é slammer e indicou poetas que ainda não livros publicados, mas fazem da oralidade e das plataformas digitais, espaços para suas poesias. Nós já anotamos os nomes e vamos acompanhá-las. 

Romance:

  • Todos os abismos convidam para um mergulho, de Cinthia Kriemler (Editora Patuá)

    Beatriz é uma assistente social que trabalha numa casa abrigo, lidando com crianças e adolescentes vítimas de abusos e maus-tratos. Uma profissional obstinada. Uma mulher forte, dura, ácida, desencantada. Obcecada pela vontade de se punir pela morte de sua filha única, Laura, uma adolescente de 16 anos, vítima de depressão, que cometeu suicídio há dois anos.

    Beatriz é uma mulher com muitos fantasmas. Um deles, a sua relação complicada e agressiva com a mãe, desde a infância. Divorciada de Bernardo, um homem paciente e amigo, mantém com ele uma relação de dependência emocional quase mórbida, mas ao mesmo tempo de gratidão.

    Depois que causa involuntariamente — ou não? —, a morte de um abusador, é obrigada a fazer terapia com Clarice, uma psiquiatra a quem não consegue manipular e que a faz trazer à superfície histórias e sentimentos indesejados. Que a põeem contato com uma Beatriz que não sabe se distanciar dos casos em que atua, que se vinga, e que coloca a empatia pelas vítimas acima da ética.

    Sexo. É o que Beatriz faz quase o tempo todo. Um sexo destituído de amor, que ela decide quando e como acontece. Uma válvula de escape que pode ter se tornado um vício. Em volta dela, a violência e a insanidade praticadas por todo tipo de abusadores contra incapazes e minorias, delineando a cara de uma sociedade alienada e esfacelada, que fecha os olhos para o que precisa ser feito com a urgência do ontem.

  • O peso do coração de um homem, de Micheliny Vernuschk (Editora Patuá)
    Logo no início deste livro, o narrador, um menino então sem nome, constata: “morar perto do fim do mundo é morar longe, perto de nada, numa terra sem país”. O impactante parágrafo de abertura determina os matizes que vão se espalhar da primeira à última palavra do romance. O pôr do sol e a poeira das estradas que a civilização tarda a percorrer têm cor de sangue num Brasil de feridas abertas, de instituições de fachada, verdadeira terra sem país.
    Na trama, dois meninos são tirados à força da família por conta de uma antiga e misteriosa rivalidade, levada a cabo, como sói acontecer, de forma brutal e às margens da lei. Na casa de seus captores, são bem tratados e ganham pela primeira vez nomes próprios: Cristóvão, o narrador, Gonçalo, o caçula. É a memória dessas violências que vai converter o mais velho num assassino juvenil capturado pela polícia, apresentado no romance anterior da autora, Aqui, no coração do inferno.
    Um mundo muito pobre de palavras e gestos, como o narrador o descreve — fazendo lembrar os grunhidos animais de Fabiano e Sinhá Vitória, de Vidas secas —, permite que as pessoas prescindam de nomes. O menino percebe, sem o saber, na linguagem a lâmina que retalha o corpo do mundo e condena ao isolamento elementos até então indistinguíveis: “como se as coisas indefinidas não pudessem ter existência de verdade”.
    Nesse mundo, nomear talvez signifique justamente condenar. “Mãe era mãe. Corália era nome de morte”. Assim como fizeram com sua mãe, para ser capaz de se vingar Cristóvão precisa antes dar nome a assassina dos pais: Abutra.
    É nesse ponto em que o peso do ato de nomear é flagrado que a literatura de Micheliny se dá a ver em toda a sua grandeza. A percepção do poder criador (e destruidor) da palavra, constitutiva de toda boa literatura, está presente na premiada trajetória da autora como poeta e prosadora. Essa consciência possibilita que, numa trama de vingança, repleta do suspense e da ação que fazem o leitor ansiar pela próxima página, descortinem-se também, sem sociologismos, as mazelas de um país que se urbanizou, mas nunca deixou de ser regido pelos costumes dos grotões mais violentos.
    “O peso do coração de um homem não é diferente do peso do coração de qualquer animal”, conclui o menino, já hábil no catecismo da morte. Quem determina esse peso é a linguagem. E, no trabalho com a linguagem, é válida outra de suas descobertas no trato com as vítimas: “passar a faca tem outro tipo de exatidão”. É com essa exatidão que a autora dispõe as palavras nesse belo e poderoso romance.

  • O indizível sentido do amor, de Rosângela Vieira Rocha (editora Patuá)
    Em O indizível sentido do amor, Rosângela Vieira Rocha nos oferece o resultado dessa coragem. É uma autobiografia; é uma biografia não autorizada pelo biografado; é um depoimento pessoal e subjetivo de uma experiência vivida; é memória, com certeza; é ficção também, pois é a reconstrução romanceada de uma história real em que muitas partes são reconstruídas pela imaginação. É principalmente o relato de uma busca obsessiva para preencher uma lacuna sobre a juventude do companheiro de mais de quarenta anos.

Contos:

  • Enfim, Imperatriz, de Maria Fernanda Elias Maglio (Editora Patuá)
    Do meu útero todas as sementes escorregaram. A cada vez que ele se aliviava em mim, eu tinha crença de filho. Sete anos e eu infecunda. Médicos de Berlim, Dallas, Copenhague e Dublin me vasculharam. Fotografaram meu interior e me espantei que fosse tão turvo. Eu, de olhos cintilantes e boca de romã, em cuja cabeça aspergiram açúcar no dia do casamento, que era doce, que reluzia, me descobri oca. Dentro de mim só havia escuro. Sete anos de espera, clínicas e injeções. Ele me amava, decerto me amou até o fim. Pensava em mim quando se deitava sobre ela. Ela, cujo avesso foi claro e fecundo. Que pariu quatro filhos, o primeiro deles, homem. Herdeiro da dinastia persa. (…)

  • A solidão faz festa, de Lygia Roncel (Editora Patuá)
    Finalista do Prêmio Sesc de literatura.No alto daquela pedra pontuda, Damião é mais anfíbio que os sapos. O musgo cola no seu peito liso, o coraçãozinho dança sob o prelúdio das aves do brejo e o menino se esquece de que é menino para apanhar insetos no ar. Do galho seco de um jenipapo faz seu majestoso cajado, e então, munido dele, Damião parece um deus, maestro indiscutível das cambaxirras. No chacoalhar do seu punho é que a tarde se torna inteira; vão para o céu os passarinhos, o novelo das nuvens se desenrola no comprido e copioso azul, as lagartas se espreguiçam nas folhas nuas das árvores, o sol subitamente desce ao encontro do oeste, e tudo porque ele está ali, no comando. (…)
  • O Caranguejo e outras histórias de amor, sedução e morte, de Liniane Haag Brum (Editora Patuá)
    O Caranguejo e outras histórias de amor, sedução e morte traz contos que lançam um olhar múltiplo e multifocal nas relações amorosas, assim como nas afetivas e sexuais. Homens e mulheres; casais; mães; pais; filhos e filhas marcados por fissuras emocionais, têm seus dramas traduzidos por narradores. São textos-fragmentos da vida íntima contemporânea. A poeta Annita Costa Malufe, que assina a orelha, escreveu: “Diversas fases da vida estão aí presentes – a menina adolescente em seu primeiro beijo, a mulher que repete seus rituais diários e lamenta-se pelo nascimento da filha, a moça que reencontra um antigo namorado, o amor de um homem por uma mulher mais velha, o bebê que nasce com uma doença congênita (…) Uma apresentação de afetos, no lugar de uma representação de formas preestabelecidas”.

Poesia:

  • Móbile, de Ana Santos (Editora Patuá)Para morrerPôr um vestido
    (florido),
    um chapéu,
    e ir à feira, sozinha,
    comprar romãs.Mastigar lentamente
    a polpa rubra
    sob um pé
    de vento
    (o chapéu tem de voar;
    um pássaro tem de bicar
    as sobras dos frutos).Sujar os dedos
    do que há
    no coração das romãs.
    Deitar na relva e esperar,
    de mãos abertas,
    a chegada de abelhas.
  • Diadorim, de Luana Claro (Editora Patuá)veja só que desperdício
    só deixar o dia passar
    na intenção de apagar
    qualquer indício teu
  • Caranguejo, de Gabriela Sobral (Editora Patuá )
    BICHO
    Projeto de bicho 
    dizem: bicho do mato 
    porém, simpático 
    digo: bicho de lama 
    porém, afeita a banhos 
    As pedras não arranham 
    bicho de ferro 
    caia à vontade 
    porque: formada de dobradiças 
    lado e de lado 
    a volta é o próximo avanço 
    Que o tempo passe 
    porque: passarei dona dos lares 
    manipulável e reagente
    O peito, ainda que orfandade, 
    virou mãe.
  • Sem Gentileza, de Futhi Ntshingila (Dublinense)
    Este é um romance forte, sobre mulheres fortes, determinadas a seguir seus próprios princípios. Futhi Ntshingila – autora sul-africana de origem Zulu – levanta sua voz com uma espécie de realismo místico no qual os espíritos ancestrais ainda são capazes de modificar o mundo. Em uma narrativa polifônica que se multiplica ao avançar, Sem gentileza nos permite conhecer mais de uma mulher, mais de uma África e mais de um tempo, num mosaico construído com coragem.Em meio ao apartheid, nos guetos da África do Sul, mãe e filha precisam sobreviver em um ambiente marcado pela pobreza e pelo medo da aids. Este romance traz uma história de superação de cruéis adversidades, mas também conta a trajetória de libertação pessoal de uma mulher orgulhosa e de uma menina que se torna adulta cedo demais. Diante de uma sociedade machista que tenta anular suas existências, Zola e Mvelo lutam para que suas vozes sejam ouvidas.

  • Leite do Peito, de Geni Guimarães (Mazza Edições)
    Indicado para o Ensino de Jovens e Adultos (EJA), Selecionado para o PNBE – 2006. Livro de contos com referências autobiográficas que narra de forma tocante as lembranças de uma menina negra crescendo e se fazendo mulher. O sonho de ser professora e o amor da família são as forças que ela tem contra as dificuldades financeiras, os preconceitos e ainda ser amiga e defensora da irmã deficiente mental.

  • A guerra não tem rosto de mulher,  de Svetlana Alexijevich (Companhia das Letras)
    A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino – soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente. É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Alexiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.
  • Betina, de Nilma Lino Gomes (Mazza Edições)
    Sobre a cabeça que pensa e recorda nada melhor que colocar tranças. O penteado requer mãos habilidosas e uma grande alegria de reafirmar valores ancestrais. Com esses elementos, é possível entrelaçar cabelos e aproximar cabeças que pensando juntas pensam muito melhor. A lição do penteado, Betina aprendeu da amorosa avó e a avó aprendeu com a mãe dela que aprendeu com outra mãe que tinha aprendido com uma tia. Só que Betina foi além e espalhou a lição para filhas e filhos, mães e avós que não eram os dela. Ela abriu um salão de beleza diferente e ficou conhecida em vários lugares do país. Mas Nilma Lino Gomes tem muito mais detalhes deliciosos dessa linda história.

  • A diferença invisível, de Julie Dachrz (Nemo)
    Marguerite tem 27 anos, e aparentemente nada a diferencia das outras pessoas. É bonita, vivaz e inteligente. Trabalha numa grande empresa e vive com o namorado. No entanto, ela é diferente. Marguerite se sente deslocada e luta todos os dias para manter as aparências. Seus movimentos são repetitivos e seu universo precisa ser um casulo. Ela se sente assolada pelos ruídos e pelo falatório incessante dos colegas. Cansada dessa situação, ela irá ao encontro de si mesma e descobrirá que é autista – tem a Síndrome de Asperger. Sua vida a partir daí se transformará profundamente.
  • Olhos D´Água, de Conceição Evaristo (Pallas)
    Em ‘Olhos d’água’ Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem.
  • A vida que ninguém vê, de Eliane Brum (Arquipélago)
    A obra é um conjunto de crônicas-reportagens, reunidas em livro, sobre o olhar da autora, a repórter Eliane Brum, em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebridades. A edição reúne 21 das colunas de ‘A Vida Que Ninguém Vê’ acrescidas de textos que revelam o ‘dia seguinte’ de dois personagens emblemáticos da série de reportagens – Adail e Antonio.

  • A estrutura da bolha de sabão, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras)
    Esta reunião de oito contos escritos por Lygia Fagundes Telles em épocas e circunstâncias diversas atesta não apenas a excelência da prosa da autora mas também a sua condição de notável “pesquisadora de almas”, conforme a definiu o crítico Nogueira Moutinho. Os protagonistas destas histórias encontram-se, em geral, numa relação crítica com as pessoas e ambientes que os cercam — e também consigo próprios. Secretos podres familiares, desenganos amorosos, vocações frustradas, o desejo extraviado, nada é confortável nessas narrativas descontínuas, que alternam descrição objetiva, discurso indireto livre e fluxo de consciência, num autêntico tour de force literário. A vida, parece nos dizer a autora, é frágil, fugaz e misteriosa como uma bolha de sabão.

  • Da Poesia, de Hilda Hilst (Companhia das Letras)
    A intensa e prolífica atividade literária de Hilda Hilst se desdobrou em livros de ficção e em peças de teatro, mas foi na poesia que ela deu início e fim à sua carreira. Ao longo de 45 anos, entre 1950 e 1995, a poeta publicou em pequenas tiragens graças ao entusiasmo de editoras independentes — com destaque para Massao Ohno, seu amigo e principal divulgador. No início dos anos 2000, os títulos de Hilda passaram a ser publicados pela Globo, editora com ampla distribuição. Nessa época, a sua escrita, até então considerada marginal e hermética, começou a receber o interesse de uma legião de leitores e estudiosos. Agora, a Companhia das Letras reúne, pela primeira vez, toda a lavra poética da autora de Bufólicas em um só livro, que inclui, além de mais de 20 títulos, uma seção de inéditos e fortuna crítica. O material contém posfácio de Victor Heringer, carta de Caio Fernando Abreu para Hilda, dois trechos de Lygia Fagundes Telles sobre a amiga e uma entrevista cedida a Vilma Arêas, publicada no Jornal do Brasil em 1989.A poesia de Hilda — que ganha forma em cantigas, baladas, sonetos e poemas de verso livre — explora a morte, a solidão, o amor erótico, a loucura e o misticismo. Ao fundir o sagrado e o profano, a poeta se firmou como uma das vozes mais transgressoras da literatura brasileira do século XX.

  • Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur (Planeta)
    Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume.
  • Niketche – uma história de poligamia, de Paulina Chiziane (Companhia das Letras)
    Casada com Tony há vinte anos, Rami descobre que o marido tem várias mulheres em outras regiões de Moçambique. Paulina Chiziane, primeira moçambicana a publicar um romance, combina humor e lirismo neste retrato da cultura moçambicana tradicional e das relações entre homem e mulher num país em que a poligamia é um costume arraigado.
  • Coroações – Aurora de Poemas, de Débora Garcia (Independente) 
    Escritos por Débora em diferentes fases de sua vida, os textos de “Coroações – Aurora de poemas” falam de dor, denúncia social, amor, escrita, ancestralidade e negritude, assuntos estes distribuídos em três capítulos: “Coroa de Espinhos”, “Coroa de Flores” e “Ojá”, quesimbolizam as coroas que a autora vestiu e veste ao longo de sua vida. A estruturação do livro também evidencia o momento histórico, social, cultural e emocional que motivaram a escrita dos textos.
  • Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves (Record)
    No final do século XIX, Kehinde, uma africana idosa, cega e à beira da morte, viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Neste romance, os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens, criando a saga emocionante e verossímil da história de Kehinde.
  • A Rainha do Ingoto, de Emília Freitas (Edunisc)
    ‘A Rainha do Ignoto’ – romance psicológico, que agora ganha nova edição, foi publicado pela primeira vez em 1899. Discorrendo sobre temas relacionados à alma feminina e à situação das mulheres na sociedade patriarcal, o romance revela uma sociedade secreta de mulheres, hierarquicamente organizada em uma ilha, denominada Ilha do Nevoeiro, governada por uma Rainha que recrutava mulheres a partir do sofrimento vivenciado por elas no cotidiano. ‘A Rainha do Ignoto’ é uma curiosa narrativa que, lembrando velhas lendas, recria num clima de mistério a beleza dos contos europeus. O grande interesse do livro está na criação de uma utópica comunidade de mulheres, uma comunidade perfeita, a das chamadas. paladinas que só fazem o bem e só buscam ajudar aos perseguidos.

  • Úrsula, de Maria Firmino dos Reis (PUC Minas)
    Úrsula não é apenas o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, é também o primeiro da literatura afro-brasileira, entendida como produção de autoria afrodescendente que tematiza a negritude a partir de uma perspectiva interna.
  • Sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    Sangria é o segundo livro da poeta Luiza Romão e revisita a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. O livro tem edição bilíngue (português e espanhol) e o prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda.
  • um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas (Companhia das Letras)
    Lançado em 2012, o livro se tornou um clássico contemporâneo ao refletir, com humor e perspicácia, sobre questões de gênero.Depois de lançar Rilke Shake (coleção Ás de Colete, 7Letras e Cosac Naify, 2007), o segundo livro de Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2012), reúne poemas escritos a partir de um tema central: a mulher. Uma das vozes mais destacadas da geração, Angélica Freitas subverte as imagens absolutamente gastas do que se espera do gênero feminino — anunciadas em capas de revistas e em vitrines de lojas de departamentos —, e joga luz — com inteligência, sagacidade e senso de humor aguçado — sobre o nosso tempo.

  • espanca-estanca, de Luz Ribeiro (Editora Quirino)
    Com 138 páginas e dividido em dois volumes contrapostos, a autora selecionou poesias que ora espancam, seja pela feracidade ao se tornarem oralidade ou como batem, ora no peito, pra na mente, ao serem lidas. “São textos que estancam mazelas passadas, presentes e futuras. Minhas ou de semelhantes”, resumiu.O livro duplo chega para suprir as cobranças feitas a poeta desde a primeira publicação, em 2013. Assim, juntando palavras perdidas em caderninhos, bloco de notas do celular, documentos de word não nomeados, ela fez uma seleção de textos que considera urgentes.
  • todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito (selo doburro)
    todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito. o livro de estréia de lâmia traz uma poesia maturada de alguém que foi pesquisando na surdina, sem muito alarde. mesmo a autora circulando bastante pelos circuitos de saraus e slams, até a chegada desse livro em minhas mãos a poesia de lâmia ainda era bem indefinida para mim e neste livro ela demonstra ter consciência dos caminhos que busca, embora tateie bastante no experimento. as artes do livro, provocadas por ela, merecem também destaque a parte. vale aguardar ansiosamente e ficar de olho nos próximos passos.
  • pirueta, de Regina Azevedo (selo doburro)
    pirueta, de Regina Azevedo. o terceiro livro de poesia de regina, mesmo antes de seus 18 anos, demonstra sua maturidade poética e consolidação da escrita. além de inseri-la definitivamente no cenário da poesia nacional, não apenas como uma aposta, mas como uma realidade e uma das principais e mais autênticas vozes de uma nova poesia, com muito vigor e jovialidade. logo, é um livro com muita complexidade e força.
  • alteridade, de Maria Giulia Pinheiro (selo doburro)
    alteridade, de Maria Giulia Pinheiro. livro objeto, pois com a intervenção de sangue da autora o livro materializa a proposta da poesia que anteriormente à publicação já tinha sido exposta como peça de teatro e dramaturgia. o poema trata de um assunto central na nossa sociedade, o estupro como forma de dominação do patriarcado, e especialmente um tema complexo no imaginário das mulheres a agressão física e psicológica que isso causa. nesse ponto o livro é bastante amplo pois propõem uma relação de alteridade com os homens, mas sem deixar de demonstrar a ferida e sua dor e cutucar fundo todos os dramas sanguíneos, morais e amorais que envolvem esse tipo de violência. e quais são as dores de seus ecos.
  • 8, de Fernanda Senna (selo doburro)
    8, de Fernanda Senna . esse livro-jogo surgiu de uma provocação sobre a infância num dos encontros do programa vocacional, orientações de literatura ministradas por mim. embora pareça nepotismo, a dedicação da fernanda em escrever e desenvolver o que parecia uma simples provocação resultou num livro, ou num jogo, maravilhoso, com 64 microtextos entre poéticos, contos ou crônicos. a dedicação na pesquisa da fernanda transforma o projeto numa grande provocação sobre as possibilidades lúdicas da arte. tudo bem conceituado e fundamentado mas sem perder a mão da poesia.
  • sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    sangria, Luiza Romão. esse projeto de luiza demonstra além de bastante qualidade poética e visão política da autora uma característica multimídia que marca os novos escritores. a poesia é grande e mesmo assim ela não se basta, transforma em fotos, performances, músicas, vídeos e faz do projeto de um livro uma ação múltipla que envolve diversas mulheres e suas histórias e trabalhos.
  • capim santo, de Eveline Sin (selo doburro)
    capim santo, Eveline Sin até aqui. esse livro reúne toda poesia (antologia com devolva meu lado de dentro, nas vestes dos peixes as palavras de ontem e manga-espada) da poeta e marca sua mudança de nome. eveline sin que tem uma poesia consistente desde seu livro de estréia e segue inventando e consolidando sua história com posturas éticas e políticas mas especialmente com força poética e bom uso das palavras pra criar imagens fortes e intrigantes. link nos comentários.
  • Resistência – A História de uma Mulher que Desafiou Hitler, de Agnès Humber (Casa dos Livros)
    No verão de 1940, quando a ocupação nazista na França se tornou irremediável, a vida da historiadora de arte Agnes Humbert tomou um rumo surpreendente. Inconformada com a dominação nazista, movida por uma coragem ímpar e com o apoio de seus colegas do Museu do Homem em Paris, Agnès fundou um dos primeiros grupos da Resistência francesa. Durante quase um ano, ela e seus companheiros redigiram, imprimiram e distribuíram o jornal Résistance, além de panfletos e outros textos contra o governo de Vichy.A rede de rebeldes do Museu do Homem, improvável porém eficiente, conquistaria um lugar de trágico destaque na história da Segunda Guerra Mundial. Em 1941, muitos dos seus membros, incluindo o carismático líder Boris Vildé e a própria Agnès, foram traídos por um espião e entregues à Gestapo. Presos, sete dos homens foram condenados à morte e executados por um pelotão de fuzilamento. As mulheres foram deportadas para a Alemanha como trabalhadoras escravas.Em ‘Resistência’, esses eventos são descritos com um imediatismo pulsante, que percorre cada página do diário secreto de Agnès, publicado inicialmente na França em 1946 e depois esquecido. Até a sua captura, nos primeiros meses de 1941, Agnès registrou os fatos dia após dia, e suas anotações nos permitem acompanhar cada passo dos primórdios da Resistência. Feita prisioneira, ela não tinha mais como escrever em seu diário. Contudo, ao ser libertada em 1945, dedicou-se a repassar os fatos em sua memória para registrá-los ainda no calor dos acontecimentos.Com humor, inteligência e ironia, Agnès constrói uma narrativa única, um ponto de vista original sobre esse período obscuro e dramático do século XX. A delicadeza de suas observações cativa o leitor. Apesar de fisicamente debilitada e espiritualmente exausta, ela ainda é capaz de se preocupar com a saúde da mãe e a situação dos filhos. Quando seu filho Pierre a visita na prisão de Fresnes, Agnès se ressente da degradação daquele momento e lamenta consigo mesma por não poder evitar que ele tome parte naquele teatro do absurdo.Recusando-se, inclusive nos dias mais duros, a ceder e a abandonar sua compaixão, Agnès revela aos poucos, com habilidade e um toque de sarcasmo, a profundidade de seu ultraje e de suas convicções. Escrito com o vigor dos eventos recém-vividos, Resistência é o testemunho do espírito indomável de uma mulher, e um tributo eloquente ao sacrifício e à coragem dos seus camaradas que não sobreviveram.
  • A mulher desiludida, de Simone de Beavouir (Nova Fronteira)

    Contadas em forma de diário escrito pelas protagonistas, as três histórias deste volume têm como temas gerais a solidão e o fracasso. As mulheres desta coleção de relatos não conseguem compreender bem o que lhes está acontecendo, um universo que até então lhes parecia seguro começa a desmoronar e, aturdidas, elas perdem até mesmo a noção de sua identidade real.

  • Shakespeare and Company – Uma livraria na Paris do entre-guerras, de Sylvia Beach (Leya)
    Autobiografia da livreira Sylvia Beach, editora e escritora que, em 1919, abriu uma livraria numa ruela da Rive Gauche, que se tornou o epicentro da agitação cultural dos anos 20 e 30. Grandes escritores como James Joyce, Hemingway, Fitzgerald e Gertrude Stein, além de personalidades do cinema e da música fizeram da Shakespeare and Company o endereço da criatividade no período entre as duas guerras mundiais.
  • Como se estivéssemos em palimpseto de putas, de Elvira Vigna (Companhia das Letras)
    Dois estranhos se encontram num verão escaldante no Rio de Janeiro. Ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora moribunda. O acaso junta os protagonistas numa sala, onde dia após dia ele relata a ela seus encontros frequentes com prostitutas. Ela mais ouve do que fala, enquanto preenche na cabeça as lacunas daquela narrativa.
    Uma das grandes escritoras brasileiras da atualidade, Elvira Vigna parte desse esqueleto para criar um poderoso jogo literário de traições e insinuações, um livro sobre relacionamentos, poder, mentiras e imaginação.
  • Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues (Editora Hedra)
    “Sem vista para o mar”, reunião de vinte e dois contos ficcionais, foi escrito por Caroline Rodrigues, ganhadora do Jabuti 2015 e premiada pela Biblioteca Nacional. A linguagem usada no livro não é apenas o meio de transmitir as histórias; ela possui, em si mesma, uma vivacidade e fluidez que embala a leitura. Através dela aproxima, em unidade de comunicação, os personagens apresentados em cada conto (muito diferentes entre si).Neste livro não existe visão dicotômica de mundo: a autora, antes, se preocupa em pincelar suas personagens, sempre multifacetadas, com qualidades que vão além de um discurso moral, econômico ou social. Por mais que a concretude das realidades apresentadas seja parte inerente da história, não funcionam como ponto de partida.Os contos são também permeados de imprevistos, encontros e desencontros – tanto em nível de trama quanto de experiência do leitor. É inclusive possível se deparar com personagens recorrentes, que aparecem em mais de um conto.A experiência literária e sensível em “Sem vista para o mar”, livro contemporâneo, nacional e premiado, é única e estimulante na medida em que nos faz cruzar, entre tantas personagens e vidas, com identidades que nos soem familiares.
  • Câmera Lenta, de Marília Garcia (Companhia das Letras)
    Depois de Teste de resistores, Marília Garcia dá continuidade à sua pesquisa sobre o processo poético. Na última parte de Câmera lenta, ela se dedica a uma profunda análise sobre as hélices do avião e sobre a vontade de decifração. O poema, aqui, é o lugar para experimentar, exercitar o pensamento “ao vivo” e testar procedimentos novos, sempre em aberto. Para Italo Moriconi, que assina a orelha, trata-se de uma “poética desbravadora, sofisticada, antenada”.
  • todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito (selo doburro)
    Ferida inflama, drena e cura. Fica a cicatriz, como as linhas que desenham palavras. Lâmia faz assim sua linguagem. Daqueles livros que suspeitam diários contemporâneos. Suspiremos.
  • Desterros, de Natalia Timerman (Elefante) 
    Abrir espaços de humanidade é a cura que a arte opera. Desterros faz da experiência de uma médica no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário um caminho de liberdade e encontro com as histórias das detentas e dos detentos.
  • Avessamento, de Maria Giulia Pinheiro (Editora Urutau)
    (Pode citar o próprio livro? O que me inspira mais do que o que eu expiro, não é mesmo?)Entre fotos, poemas e pulmões, Avessamento confirma a linha das entranhas como atos políticos, que venho desenrolando nas obras anteriores. Literatura que faz da carne o corpo, que faz da letra o osso. Palavra que cobre o músculo de sentimento.Da carne ao corpo,do corpo ao texto:
    Literatura é fome
    de alma do avesso”
  • tudo nela brilha e queima, de Ryane Leão (Planeta)
    Livro de estreia de Ryane Leão, mulher negra, poeta e professora, criadora do projeto onde jazz meu coração, com mais de 150 mil seguidores nas redes. “a poesia é minha chance de ser eu mesma diante de um mundo que tanto me silencia. é minha vez de ser crua. minha arma de combate. nossa voz ecoada. nossa dor transformada. nela eu falo sobre amor, desapego, rotina, as cidades que nos atravessam, os socos no estômago que a vida dá, o coração desenfreado, a pulsação que guia as estradas, os recomeços, os dias, as noites, as madrugadas, os fins, os jeitos que a gente dá, as transições, os discos, os tropeços, as partidas, as contrapartidas, os pés firmes que insistem em voar, e tudo isso que é maluco e lindo e nos faz ser quem somos.”
  • Heroínas Negras, de Jarid Arraes (Pólen)
    Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.
  • Dia bonito pra chover, de Lívia Natália (Editora Malê)
    O livro Dia bonito pra chover é uma dessas coisas novas que o amor tem para contar. Rumas de corais feitos de palavras que, mesmo narrando vivências de correntezas, ainda guardam o tempo das conversas de semear os dias. Poemas que alcançam aquela nota mais alta da música. Um espelho da profundidade e faceirice que é a autora, Lívia Natália. Percebe-se: ali mora a magia e o tempo das noites frias.  Ali é onde cravejado os olhos infantis vê-se que o amor não é uma mordaça e sim a oportunidade ser única. Nas linhas que brotam em cada página “se amostram” um lado lua tão forte e inevitável quanto a nuvem que precipita chuva e cai derramando-se nos mistérios de um Rio. Lê-lo é desvela-se. Revolver-se. É sim! Aquela água toda. Aquela força toda. Aquela profundeza de dar medo. Versos que benzem tinos, rezam rumos, curam juízos abalados, lavam bocas maledicentes. Uma torrente que tudo flui e penetra, até mesmo as mais áridas almas. O que há dentro aqui? Uma porção de fluidos de “Palma da Rainha”. As águas frias e banzadas da Lagoa de Abaeté. Segredos e anseios de palha da costa por cima do barro. Assim segue tsunami que anseia tomar cidades. Um livro (ELA). Um poço sem fundo.
  • Americanah, de Chimanada Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
    Uma história de amor implacável que trata de questões de raça, gênero e identidadeLagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. 
    Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. 
    Principal autora nigeriana de sua geração e uma das mais destacadas da cena literária internacional, Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. Bem-humorado, sagaz e implacável, Americanah é, além de seu romance mais arrebatador, um épico contemporâneo.
  • Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex (Geração Editorial)
    Neste livro-reportagem, a autora resgata do esquecimento um dos capítulos da nossa história – as práticas ocorridas durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.
  • tempo é dinheiro, de Lionel Shriver (Intrínseca)
    Shep Knacker sempre economizou para a ‘Outra Vida’ – um retiro idílico no Terceiro Mundo, onde um modesto pé-de-meia poderia durar para sempre. Os engarrafamentos de Nova York seriam substituídos por tempo para ‘falar, pensar, ver e ser’ – e por horas de sono suficientes. Quando ele vende sua empresa de consertos domésticos por um milhão de dólares, parece que seu sonho finalmente será realizado. Ainda que Glynis, com quem é casado há 26 anos, sempre arrume desculpas e diga que nunca é o momento certo para partirem. Cansado de trabalhar como um peão para o idiota que comprou sua companhia, Shep anuncia que está de mudança para uma ilha na Tanzânia, com ou sem a esposa. Recém-chegada de uma consulta médica, Glynis também tem um anúncio a fazer – Shep não pode ir a lugar algum. Ela está doente e precisa desesperadamente de seu plano de saúde. Mas o convênio cobre apenas parte das despesas incrivelmente altas do tratamento, e o pé-de-meia de Shep para a ‘Outra Vida’ parece se desfazer a cada dia.
  • espanca-estanca, de Luz Ribeiro (Editora Quirino)
    Com 138 páginas e dividido em dois volumes contrapostos, a autora selecionou poesias que ora espancam, seja pela feracidade ao se tornarem oralidade ou como batem, ora no peito, pra na mente, ao serem lidas. “São textos que estancam mazelas passadas, presentes e futuras. Minhas ou de semelhantes”, resumiu.O livro duplo chega para suprir as cobranças feitas a poeta desde a primeira publicação, em 2013. Assim, juntando palavras perdidas em caderninhos, bloco de notas do celular, documentos de word não nomeados, ela fez uma seleção de textos que considera urgentes.
  • Claviculário,  de Anna K Lima (Substânsia) 
    Gestado durante dez anos, o livro da escritora cearense Anna K Lima tem fogo, água, terra e elementos ainda não descobertos. É sublime. Uma das leituras que mais me deixou fora do eixo nos últimos anos. O livro saiu em junho de 2017 pela Editora Substânsia e ganhou uma nova edição do Selo Editorial Aliás.
  • O que é lugar de fala, de Djamila Ribeiro (Letramento)
    Muito tem se falado ultimamente sobre o conceito de lugar de fala e muitas polêmicas acerca do tema têm surgido. Fazendo o questionamento de quem tem direito à voz numa sociedade que tem como norma a branquitude, masculinidade e heterossexualidade, o conceito se faz importante para desestabilizar as normas vigentes e trazer a importância de se pensar no rompimento de uma voz única com o objetivo de propiciar uma multiplicidade de vozes. Partindo de obras de feministas negras como Patricia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, o livro aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos explicando didaticamente o que é conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história. Em Aprendendo com o outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro, Patricia Hill Collins fala da importância das mulheres negras fazerem um uso criativo do lugar de marginalidade que ocupam na sociedade a fim de desenvolverem teorias e pensamentos que reflitam diferentes olhares e perspectivas. Pensar outros lugares de fala passa pela importância de se trazer outras perspectivas que rompam com a história única.
  • O martelo, de Adelaide Ivánova (Garupa)
    Adelaide Ivánova nasceu em 1982 na cidade de Recife. Jornalista, poeta, tradutora e fotógrafa, seu trabalho percorre o mundo em publicações impressas e digitais como i-D (UK), Colors (Itália), Te Hufngton Post (EUA), Modo de Usar & Co. (Brasil), Suplemento Pernambuco (Brasil) entre outras. “O Martelo” é seu terceiro livro de poemas. Sua edição brasileira lançada pelo Edições Garupa em 2017 traz um aparente formato padrão e surpreende o leitor com uma fina camada de tinta vermelha que cobre a capa sujando suavemente as mãos de quem o encosta. Dividido em duas partes, o livro se destaca da atual poesia brasileira ao assumir uma voz verdadeiramente feroz e não temer tratar assuntos cortantes. Nas palavras de Carol Almeida, autora do posfácio: “É chegada a hora de soltar o verbo e o gozo de dizer o que precisa ser dito do jeito que precisa ser dito, ou de como estupro é estupro, trepada é trepada e literatura é sentir na pele o peso das palavras”.
  • Manual da Faxineira,  de  Lucia Berlin (Companhia das Letras)
    Lucia Berlin teve uma vida repleta de eventos e reviravoltas. Aos 32 anos, já havia vivido em diversas cidades e países, passado por três casamentos e trabalhado como professora, telefonista, faxineira e enfermeira para sustentar os quatro filhos. Lutou contra o alcoolismo por anos antes de superar o vício e tornou-se uma aclamada professora universitária em seus últimos anos de vida. Desse vasto repertório pessoal, Berlin tira inspiração para escrever os contos que a consagraram como uma mestre do gênero. Com a bravura de Raymond Carver, o humor de Grace Paley e uma mistura de inteligência e melancolia, Berlin retrata milagres da vida cotidiana, desvendando momentos de graça em lavanderias, clínicas de desintoxicação e residências de classe alta da Bay Area.
  • Coisas que não quero saber, Deborah Levy (Autêntica)
    Deborah Levy, sul-africana radicada em Londres, é uma das vozes mais originais e transgressoras da literatura de língua inglesa. Em Coisas que não quero saber ela tece uma resposta, feminina, ao conhecido ensaio de George Orwell “Por que escrevo”, de 1946. Aqui ela reflete, literariamente, sobre as razões que a levaram a escrever, tendo como pano de fundo a África do Sul, onde cresceu e onde seu pai foi preso por lutar contra o apartheid; o subúrbio londrino em que, exilada, passou a adolescência; e Maiorca, a ilha espanhola que é como um refúgio na maturidade. Neste relato vívido e perspicaz sobre como despretensiosos detalhes da vida pessoal de uma autora podem ganhar força na ficção, Levy sugere muito mais do que de fato diz. De certa forma, uma versão atualizada de “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, esta elegante autobiografia literária desvela a necessidade da mulher de dizer o que pensa, de projetar sua voz e ocupar seu lugar no mundo.
  • todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito (selo doburro)
    A obra literária com 70 páginas traz muito da história da autora, que como em um mosaico, reconstrói e narra a própria vivência por meio dos poemas. Inspirada por poetas como Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros, o primeiro volume autoral de Lâmia Brito,  capta os leitores pela identificação com os machucados e cicatrizes, que servem de matéria prima para as poesias. No livro, ela faz da literatura o antídoto para as próprias dores. Vale lembrar que o livro prefácio de MC Sant, orelha de Sin e contra-capa de Ricardo Lísias.
  • Para educar crianças feministas – um manifesto, de Chimanada Ngozi Adichie (Companhia das Letras)
    Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.
  • Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur (Planeta)
    Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume.
  • Harém, de Eugenia Zerbini  (Patuá)
  • Felizes poucos – onze contos e um coringa, de Maria José Silveira (ZLF Editorial)
  • O presente de Mazandaba e outras aventuras, de Silvia ObergTrês livros de contos, um juvenil para fazer pensar e sonhar muito, com contos de diversas partes do mundo revelados pela prosa deliciosa e repleta de jogos de Silvia Oberg e dois outros bem contrastantes.
    Harém, de Eugenia Zerbini faz um panorama de mulheres das mais diversas classes sociais e modos de ver o mundo. Surpreendente, emocionante e muito bem realizado. Por fim um dos grandes livros do ano em todos os campos, Felizes poucos evoca Shakespeare e a guerra para falar do “bando de irmãos e irmãs” privilegiados por lutarem a mais valiosa das lutas: pela liberdade de um país. Também mosaico, desta vez de jovens envolvidos na luta contra a ditadura brasileira iniciada em 1964, mostra o domínio pleno de escrita desta que é uma das grandes escritoras brasileiras em atividade.
  • Pornô Chic, de Hilda Hilst (Biblioteca Azul)
    ‘A Trilogia Obsena é formada por ‘O caderno rosa de Lori Lamby’, ‘Contos d’escárnio – textos grotescos’, ‘Cartas de um sedutor’ e ao ‘livro de poemas Bufólicas’. Pornô chic reúne os quatro títulos, ilustrados, traz o inédito Fragmento pornográfico rural e fortuna crítica que aborda a polêmica fase erótica de Hilst. O caderno rosa de Lori Lamby e Bufólicas recuperam as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar para as primeiras edições. Para ilustrar Contos d’escárnio e Cartas de um sedutor foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram uma abordagem contemporânea ao pornô de Hilst. Considerados pela autora uma ‘experiência radical e divertida’, estes livros misturam humor, críticas à sociedade, todo tipo de práticas sexuais e referências a autores célebres pelo erotismo como Henry Miller e Georges Bataille. A leitura de Pornô Chic revela o quanto Hilst pode ser irônica, debochada e divertida sem perder o refinamento. Se O caderno rosa de Lori Lamby parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho. Cartas de um sedutor narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto, que diante de sua incompreensão da vida recorre ao sexo em busca de respostas. Contos d’escárnio é uma reunião de textos satíricos, em que a sexualidade é matéria de reflexões imprevisíveis. Bufólicas é um livro de ‘fábulas safadas’ concluídas com uma ‘moral da estória’. A fortuna crítica apresenta um texto inédito do professor de História da Arte e da História da Cultura da Unicamp Jorge Coli, e inclui textos de especialistas na obra de Hilst, como a professora do departamento de Literatura Brasileira da FFLCH-USP Eliane Robert de Moraes, e o professor de Teoria Literária da Unicamp Alcir Pécora que organizou as obras completas de Hilst para a Globo Livros. Além disso, a edição recupera textos publicados na imprensa nos anos 1990, como um perfil da autora feito pelo jornalista Humberto Werneck e uma entrevista da poeta ao amigo e escritor Caio Fernando Abreu. O ciclo pornográfico de Hilst fez com que a escritora deixasse de ser considerada apenas uma autora sofisticada e lhe trouxe a fama de maldita mas seu objetivo foi alcançado e sua obra atingiu um público maior. Aos 60 anos, ela expressou surpresa diante das críticas moralistas à suas bandalheiras – ‘A sexualidade pode ser adorável, perversa ou divertida, mas eu acho que o ato de pensar excita muito mais do que uma simples relação sexual. A mim pelo menos, há muitos anos é assim’.
  • Quarto de despejo – diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (Ática Editora) 
    O diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus deu origem à este livro, que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.
  • Nuvens Ornamentais, de Natalia Barros (Demônio Negro)
    pulso
    frequência
    oscilação
    fluxo
    propagação
    amplitude
    vibração
    fusãoa caixa torácica abriga,
    no espaço compreendido
    pela curvatura das costelas,
    entre o osso esterno
    e a coluna vertebral:02 pulmões
    01 coração
    37 ossos
    01 onda do mar
  • espanca-estanca, de Luz Ribeiro (Editora Quirino)
    Com 138 páginas e dividido em dois volumes contrapostos, a autora selecionou poesias que ora espancam, seja pela feracidade ao se tornarem oralidade ou como batem, ora no peito, pra na mente, ao serem lidas. “São textos que estancam mazelas passadas, presentes e futuras. Minhas ou de semelhantes”, resumiu.O livro duplo chega para suprir as cobranças feitas a poeta desde a primeira publicação, em 2013. Assim, juntando palavras perdidas em caderninhos, bloco de notas do celular, documentos de word não nomeados, ela fez uma seleção de textos que considera urgentes.
  • Sangria, de Luiza Romão (selo doburro)
    Sangria é o segundo livro da poeta Luiza Romão e revisita a história do Brasil sob a ótica de um útero. O que dizer de um país nominalmente fálico (“pau”-brasil)? Pra isso, misturamos os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção). Representamos o país do futuro” como uma gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”) e contrapomos a figura do patriarca com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. O livro tem edição bilíngue (português e espanhol) e o prefácio de Heloisa Buarque de Hollanda.
  • alteridade, de Maria Giulia Pinheiro (selo doburro)
    Alteridade é um poema longo em que a Mulher narra o estupro que sofreu e passa, camada a camada, pela sociedade que produz e normatiza a dominação sobre as mulheres.  Os livros são numerados e contém diferentes intervenções feitas pela autora.
  • Flores Raras e Banalíssimas, de Carmen L. Oliveira (Rocco)
    Na década de oitenta, ao ler esta dedicatória em livro de Elizabeth Bishop para Lota de Macedo Soares, a escritora Carmen L. Oliveira ficou intrigada – ´…Lota?´, indagou-se. Em 1966, na pós-graduação nos Estados Unidos, conheceu a obra de Bishop, famosa poeta americana, e ficou surpresa ao saber que, naquela época, as duas moravam no Brasil. Mas quem era Lota? No início dos anos noventa Carmen descobriu que Maria Carlota Costallat de Macedo Soares foi uma esteta brasileira, que concebeu e construiu o Parque do Flamengo, enorme contribuição para a cidade do Rio de Janeiro. A publicação nos Estados Unidos do livro One art, que reúne a correspondência de Bishop, revelou a ligação amorosa das duas, que durou de 1951 a 1967. Nas biografias lançadas sobre a poeta, a esteta brasileira aparece como her lover, sempre em segundo plano. Simultaneamente, Carmen descobria em Lota um dos mais fascinantes, insólitos e raros personagens brasileiros deste século, que caiu em total anonimato. Neste livro, a autora conta a relação das duas e a criação do Parque do Flamengo. E ao contrário das biografias norte-americanas, que priorizam Bishop, o livro focaliza Lota e as figuras que junto com ela construíram a história recente do Rio de Janeiro e do Brasil. Segundo a autora, a relação das duas pode ser dividida em duas fases. Nos primeiros dez anos foram felizes e assumiram sua homossexualidade com surpreendente naturalidade para a época. A partir de 1961, a obsessão de Lota pela conclusão do Parque do Flamengo e a crescente instabilidade emocional de Bishop contribuíram para que enfrentassem uma forte crise até 1967. Muito além de um caso amoroso, o livro revela trechos inéditos da história do país: as discussões de Lota com o governador Carlos Lacerda, a briga com o arquiteto Sérgio Bernardes, a rivalidade com Burle Marx, a presença de Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Portinari, Carlos Scliar, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade. Mas sua principal contribuição é o resgate de Lota, consciência de vanguarda que combateu a fúria imobiliária e a intervenção nos monumentos naturais do Rio de Janeiro. Lota conseguiu pela primeira vez no país que um projeto urbanístico fosse tombado.
  • Troca, de Thata Alves (edição independente) 
    A obra surge com o intuito de trocar não apenas as poesias, mas olhares sobre questões cotidianas adormecidas ou naturalizadas.  Conforme a autora é uma análise da importância da ancestralidade da mulher para encarar alguns elementos de forma panorâmica.
    O livro tem 50 páginas tem prefácio de Tokinho Carvalho e  traz um olhar sobre o feminino ancestral, com poesias surgem para ela como um estado de espírito. Assim, o livreto é baseado nas experiências adquiridas por Thata Alves a partir das próprias vivências e de estudos sobre a diáspora africana.
  • Juntando os pedaços, de Jennifer Niven (Seguinte)
    Jack tem prosopagnosia, uma doença que o impede de reconhecer o rosto das pessoas. Quando ele olha para alguém, vê os olhos, o nariz, a boca… mas não consegue juntar todas as peças do quebra-cabeça para gravar na memória. Então ele usa marcas identificadoras, como o cabelo, a cor da pele, o jeito de andar e de se vestir, para tentar distinguir seus amigos e familiares. Mas ninguém sabe disso — até o dia em que ele encontra a Libby. Libby é nova na escola. Ela passou os últimos anos em casa, juntando os pedaços do seu coração depois da morte de sua mãe. A garota finalmente se sente pronta para voltar à vida normal, mas logo nos primeiros dias de aula é alvo de uma brincadeira cruel por causa de seu peso e vai parar na diretoria. Junto com Jack. Aos poucos essa dupla improvável se aproxima e, juntos, eles aprendem a enxergar um ao outro como ninguém antes tinha feito.
  • A vida imortal de Henrietta Lacks, de Rebecca Skoolt (Companhia das Letras)
    Henrietta Lacks era descendente de escravos e nasceu em 1920, numa fazenda de tabaco no interior da Virgínia. Aos trinta anos, casada e mãe de cinco filhos, Henrietta descobriu que tinha câncer. Em poucos meses, um tumor no colo do útero se espalhou por seu corpo. Ela se tratou no Hospital Johns Hopkins, e veio a falecer em 1951. No hospital, uma amostra do colo do útero de Henrietta havia sido extraída sem o seu conhecimento, e fornecida à equipe de George Gey. Gey demonstrou que as células cancerígenas desse tecido possuíam uma característica até então inédita – mesmo fora do corpo de Henrietta, multiplicavam-se num curto intervalo, tornando-se virtualmente imortais num meio de cultura adequado. Por causa disso, as células ‘HeLa’, logo começaram a ser utilizadas nas pesquisas em universidades e centros de tecnologia.
    A jornalista que começou a investigar e ficou por mais de 10 anos investigando  fez um livro livro  que traz um contexto super importante, sobre o consentimento, empresas que lucram, a família pobre da Henrietta, a forma como ela morreu por causa do tumor por causa de um tratamento sem consentimento, entre outras coisas. É um livro muito legal para ver a trajetória sensível que a jornalista teve, toda entrega de se debruçar por 10 anos nisso. Um livro muito bem escrito e é essencial para entendermos muitos processos relacionados a bioética e ciência, além disso, é muito emocionante, sobre uma mulher que foi invisibilizada, que acabou contribuindo com a ciência sem saber e não teve nenhum retorno e escrito por outra mulher, uma jornalista americana muito boa.
  • Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon (Companhia das Letras)
    É um livro que ganhei de aniversário sobre duas amigas de infância que vão cada uma para um lado e uma delas volta ao Brasil e elas fazem uma viagem para o Sul do país, uma viagem muito gostosa, uma delas é lésbica, então em algum momento elas acabam se relacionando e fica nessa linha tênue, mas é um livro muito gostoso, muito bem escrito, que a pessoa lê rapidinho e traz temas importantes como homossexualidade, relação entre duas mulheres e foi escrito por uma mulher brasileira e jovem.
  • Todas as sextas, de Paola Carosella (Melhoramentos)
    A Paola conta a trajetória dela na cozinha e como ela foi parar na cozinha. Na verdade, o pai dela cometeu o suicídio, era separado da mãe, a mãe trabalhava e por ficar muito tempo sozinha, ela começou a se distrair na cozinha e isso acabou direcionando a carreira dela, os estudos. Ela escreve muito bem e é um livro muito sensível feito por uma mulher muito forte, firme, que eu respeito e admiro. Além de tudo tem receitas gostosas e a fotografia é incrível. 
  • todas as funções de uma cicatriz, de Lâmia Brito (selo doburro)
    Intensa, pulsante e cortante. Assim é Lâmia Brito, poeta paulistana que se atém aos detalhes que ninguém mais vê: a cor do céu no horário de verão, uma cicatriz no peito de alguém dentro de um ônibus de transporte coletivo, o reflexo de uma alma no espelho de um elevador. todas as funções de uma cicatriz foi um presente para o cenário da literatura brasileira neste ano. 

  • os tijolos nas paredes das casas, de Kate Tempest (Casa da Palavra)
    Kate Tempest é uma voz literária que precisa ser ouvida. O romance ‘os tijolos nas paredes das casas’ é um livro para ser lido de um soco só. devagar. relido. saboreado. entendido. sentido. É um livro que nos muda por dentro e por fora. É real, cruel, delicioso. É urgente.  As cenas do cotidiano trazidas por Kate Tempest com uma poética inigualável fazem dela uma escritora ímpar. A proximidade com o leitor, o fato de estarmos dentro da casa, olhando para os tijolos, a bordo do Ford Cortina em que três amigos fogem, nas baladas londrinas, na rota do tráfico inglês, nos beijos, nas ruas, nos pores-do-sol, nas brigas familiares, na solidão. Estamos em tudo isso. E a forma única como Tempest consegue descrever uma refeição, um desentendimento, uma troca de roupa são incríveis. E daí vem a urgência de ler.
  • tudo nela brilha e queima, de Ryane Leão (Planeta)
    quando esbarrei, online, com a poesia da Ryane Leão, sabia que ali existia uma grande autora e ela prova isso com a primeira obra ‘tudo nela brilha e queima’.  Trata-se de um livro forte, assim como a autora por trás dele. De um livro para ser lido, relido. De um livro dolorido. De um livro que cura. Daquele tipo de livro que queremos ter, presentear, discutir, sentir. Trata-se de um livro que todas nós precisamos. De uma obra que temos que conhecer. 
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