Pesada: Política e sutil, Anná lança primeiro trabalho autoral

EP conta com quatro composições da artista paulista que versa sobre violência e padrões estéticos

O posicionamento político diante da vida é a marca do EP Pesada, de Anná, lançado neste mês de agosto e que promete sacudir não apenas o corpo com os sambas bem gravados e a voz que é uma das mais encantadoras da música contemporânea, mas também as ideias e a mente, com as várias informações que cada uma das quatro canções que somam pouco mais de 12 minutos no álbum.

Anná é uma das apostas de vozes da contemporaneidade, bem como de composição (foto: Karoline Mendes Ruiz)

O álbum traz quatro canções e todas elas passeiam por diferentes temas, mas o que marca é a fala que combate a gordofobia, que vai contra os padrões de beleza impostos, mas, com bastante lirismo e sutileza. Para Anná, este é um processo natural, tanto com a composição feita em francês, “Grosse”, como a “Carta à boa forma”.

Todas as composições são assinadas por Anná, sendo que duas tem parceira com o músico Samuel da Silva. Paulista de Mococa, a cantora de 22 anos conta que três as canções foram compostas no interior, e apenas uma delas ganhou vida na capital do estado.

 “A primeira que veio foi a francesa, a “Grosse”, que nasceu de uma vez, com letras e melodia prontas. Depois veio a “Linha Vermelha”, que fiz com o Samuel em Mococa, depois do ocorrido no Natal de 2016, quando um vendedor ambulante, índio, o Luis Carlos Rua, foi espancado até a morte por defender uma travesti na linha vermelha, em São Paulo”. A “Carta” foi parida na cozinha da minha casa em Mococa e somente a “Daqui” nasceu em São Paulo”, contou Anná.

“Toda arte é política e eu não consigo, nem nunca vou conseguir compor e nem criar nada sem me posicionar politicamente e de preferência com sutileza.”

Assim, quem aperta o play no EP encontra-se com ritmos que vão do samba ao baião, repletos de versatilidade e misturas, que desafiam os ouvidos mais acostumados às mesmices. Esta é também uma parte mais política desta primeira obra, que teve financiamento coletivo para existir e foi possível graças à formação da compositora, que é em cinema.

“Toda arte é política e eu não consigo, nem nunca vou conseguir compor e nem criar nada sem me posicionar politicamente e de preferência com sutileza. O feminismo já está intrínseco em toda composição minha, mas a escolha da temática gorda é mais recente e veio da falta da falta de representatividade na música. Existem mulheres gordas sensacionais, como Simone Mazzer, Tássia Reis, Tulipa Ruiz, Alice Caymmi, MC Carol, mesmo assim, sinto a falta de falarem mais explicitamente e gritarem – sem sutileza – sobre o tema. Sinto muito a falta de ver mulheres gordas nos clipes, nas fotos, na TV. E a gente sabe o quanto machuca essa ausência”, pontuou.

Questionada sobre a própria forma física e a escolha de militar, por meio da arte, em um tema ainda pouco explorado, mas bastante necessário, Anná rebate: “Eu sou magra? Visto 44/46, não me considero magra. E quando eu vestia 38 também me sentia gorda. A diferença é que hoje “gorda” não é um xingamento para mim. Já tive bulimia e sei bem o quanto a gordofobia pode transtornar uma mente, acho que é daí que vem minha grande vontade de lutar contra isso. Não sou obesa e entendo a necessidade dessa representatividade, mas também sinto que depois de lutar tanto para ficar bem com meu corpo, o mínimo que posso fazer é tentar transmitir isso às pessoas, especialmente às mulheres. Tem muita mulher magra se matando por se achar gorda, e eu quero tentar dizer ‘calma, ser gorda não é um defeito nem uma coisa ruim’ ao invés de dizer ‘ah, você é magra, para de pedir confete’”, destacou.

“Quando eu tinha 7 anos eu descobri que era gorda
Todo mundo já sabia, mas pra mim, uma apresentação de balé foi necessária
E a descoberta veio como um alimento pesado: ela tirou minha fome por algum tempo, algo como duas horas”

_ trecho de Grosse

O desafio agora é espalhar a música e fazer a mensagem chegar ao maior número de pessoas. No que depender da voz e da qualidade, o objetivo está garantido a esta cantora, que já tem aulas de música desde os 2 anos, já passou por igrejas e se encontrou mesmo ao descobrir o microfone aberto do bar Pau Brasil, na Vila Madalena, em São Paulo e vencer a timidez para cantar junto ao público.

“Lembro a primeira vez que fui lá, minhas amigas (Isa e Tamara) me dando o maior apoio, cantei com muita vergonha, mas depois não parei mais de ir, e hoje canto uma vez por mês lá pra não perder a conexão com esse início. Daí pra frente as coisas foram acontecendo”, comentou.

E aconteceram. Inspirada por cantores como Luiz Gonzaga, Elza Soares, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, entre outros, temos aqui um EP que incomoda, tira do lugar, faz sambar, andar, viajar e retornar para o lado de dentro de nós mesmos. É um disco que, com muita sutileza, coloca o dedo na ferida. E faz sangrar. Mas, também alenta. E este alento vem da voz de Anná, que merece ser escutada e absorvida.

Lançamentos
No próximo dia 25 de agosto às 21h acontece a primeira audição comentada do EP no Sará o quê?, com entrada gratuita. Já o show de lançamento está marcado para o dia 29 de setembro no Sesc Ipiranga.

Serviço – O EP pode ser ouvido no canal do Youtube da Anná. Mais informações podem ser acessadas no site www.canta-anna.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s