Bárbara Esmenia: “Nos quiseram invisíveis, mas nós, lésbicas, sempre fomos história”

Em mês da visibilidade lésbica, poeta, editora e atriz fala sobre conquistas, arte e existência

“Nos quiseram invisíveis, mas nós, lésbicas, sempre fomos história”. Esta é uma das muitas frases importantes ditas pela poeta e programadora cultural Bárbara Esmenia, de 33 anos, em entrevista ao Margens, convidada a falar sobre o mês da visibilidade lésbica, cuja data de comemoração é celebrada em 29 de agosto desde 1996 quando foi realizado o primeiro encontro de um movimento no Rio de Janeiro (RJ).

No bate-papo, Bárbara Esmênia fala sobre poesia, direitos, visibilidade e sociedade. “Tornar visível nossa existência, nossas pautas, nossas lutas é fomentar possibilidades de avanços, trazer à tona as necessidades de transformação”, disse.

Autora do livro Penetra Fresta, pela padê editoral, que ela criou em parceria com a também poeta e lésbica Tatiana Nascimento, e do poema “Visibilidade Lésbica: Sempre Fomos História”, Bárbara faz questão de lembrar que apenas um mês – ou um dia – não basta para que as pautas inerentes a condição das mulheres lésbicas no país sejam discutidas com o rigor que merecem.

VISIBILIDADE LÉSBICA: SEMPRE FOMOS HISTÓRIA

armaram para nós todo um esquema perverso
de exílio na Sicília
mas éramos Safo
e em ilha flutuamos

festaram alegrias querendo nascente varão
“nada falso, nada artificial”
mas éramos Greta Garbo em Rainha Cristina
e da coroa abdicamos

excluíram nosso voto
republicano-democracia
mas éramos Jane Addams
com militantes sufragistas

expulsaram-nos
– também –
do movimento feminista
mas éramos Rita Mae Brown
exigindo aceitação

retiraram de nós
instrumentos possíveis
mas éramos Audre Lorde
e já sabíamos que as ferramentas do senhor
nunca vão desmantelar a casa grande

impuseram em nós
padrão beleza hegemônico
mas éramos Zanele Muholi
foto-focando-nos em primeiro plano

planejaram para nós
subserviência escravocrata
mas éramos Ellen Oléria
bradando minha cons tchi tchi
cons tchi tchi
consciência negra

desejaram para nós
nossas vidas todas desmanteladas
jogadas na vala
enterradas na fossa
mas éramos Maria Bethânia
que qualquer brisa verga
mas nenhuma espada corta

legislaram para nós
toda uma constituição de recato do lar
mas éramos Cássia Eller
avessas às feminilidades
performando nossos corpos
nossos gostos
bem-estares

oraram para nós
nos mantermos trancafiadas
presas celas
arcabouços
mas éramos o que hoje nos tornamos
beijando quem bem queira
em plena praça pública

historicizaram de nós
como sendo inexistentes
apagadas as trajetórias
eliminadas as vivências
mas somos nós mesmas
aqui
agora
a contrapelo
construindo narrativas
trazendo à tona
todas estas que nos antecederam

buscaram amputar em nós a potência da fala,
nos impondo silêncio
mas éramos eu mesma
– Bárbara Esmenia –
abrindo a boca
soltando poesia
eco-alto pra tudo quanto é canto

nos quiseram invisíveis
mas nós
– lésbicas –
sempre fomos história

“Temos agosto como mês oficial da visibilidade lésbica, no entanto, existimos durante os 12 meses do ano, todos os dias nos fazendo visíveis em diversos espaços, buscando ocupa-los”, lembrou a poeta, que entende que querer visibilidade é querer ter direitos e existir, especialmente diante de inúmeros retrocessos aos poucos direitos batalhados historicamente. Hoje, 21 anos após o primeiro ato organizado nacionalmente em prol de visibilidade, ela comenta que pouca coisa mudou.

Mulher, negra, poeta e lésbica, Bárbara Esmenia usa das palavras e da literatura para militar também pelos direitos das lésbicas. Da própria história de vida, conta que aos 17 anos começou a frequentar o templo Hare Krishna, o que foi muito importante na própria trajetória, não por devoção, mas por referências e costumes, vivendo a existência da alma e não do corpo.

Foi neste período, um ano mais tarde, que Bárbara entendeu com natural estar apaixonada por uma mulher e trocando o primeiro beijo lésbico e namorando. “Foi tudo muito simples e fácil, não sofri, não entrei em pânico, nada. Acho que as pessoas ao meu redor sofreram mais que eu (risos) – e aqui reconheço meus privilégios de ter amigas que foram legais comigo, que me apoiaram, isso é de grande importância nestes processos. – Depois fui construindo minha vida jovem me relacionando com algumas meninas e uns poucos meninos. Lá pelos vinte e poucos anos pensei que relacionar-se é dedicar afeto e que era muito mais bonito e transformador dedicar este afeto às mulheres do que aos homens, num sentimento de união mesmo, de escolha política de soma, coletivizar-se, trocar. Desde então me relaciono somente com mulheres, faço questão de dizer sempre que sou lésbica e fomento isso em meus trabalhos: seja enquanto poeta, seja na padê editorial, seja na YBYRÁ – grupo de teatro das oprimidas que participo e que por vezes facilito oficinas; até já rolou uma exclusiva para lésbicas, num início de uma pesquisa de teatro das oprimidas e lésbicas. Isso é se fazer visível”, destacou.

Questionada sobre a presença de mulheres assumidamente lésbicas na literatura, ela provoca: “Como assumir que uma poeta latinoamericana ganhadora do Prêmio Nobel era lésbica?”, ao referir-se a poeta chilena Gabriela Mistral, primeira pessoa latino-americana e primeira mulher americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1945, premiada por sua poesia lírica nos livros “Tala” e “Desolación”.

Se até o ano passado – 2016 – eu fosse levantar o nome de poetas e escritoras lésbicas, não ia dar todos os dedos das mãos. Primeiro que neste “histórico renomado” – da literatura canônica – já é bem menos que a metade ser mulher. Agora, ser lésbica, menos do menos ainda. Só que neste ano comecei a pesquisar mais, a cavoucar, a escovar a história à contrapelo e encontrar mais poetas e escritoras lésbicas e agora, em parceria com tantas escritoras e poetas potentes que encontramos por aí nos saraus, nos vídeos que circulam pelas redes sociais, nas reportagens alternativas, são muitas. E que maravilha! E o melhor: estão vivas! O que nos diz muita coisa: as escritoras lésbicas estão aí, produzindo e nos dias mais: tantas outras devem ter passado batido, invisibilizadas, ficaram escondidas nas histórias e cabe a nós sermos pesquisadoras constantes para trazermos à tona estas narrativas”, disse.

Apesar disso, Bárbara não define a própria poesia como LGBT, embora traga uma militância orgânica e intrínseca à própria obra poética.

“Eu não sei se penso nisso, de uma poesia lgbt. Para mim o que faz sentido e é por onde eu ergo minha você, é a de fazer minha existência enquanto poeta lésbica. Enquanto visibilidade para poetas lgbt’s, acredito ser por aí. Não a criação em si, mas sim a criadora.
Porque senão parece que demanda que a poesia, o seu conteúdo, passe sempre por esta linha de soco, como se fosse a temática, sendo que nós somos múltiplas. Eu escrevo sim sobre as mulheres que amo, sobre desejos sexuais, mas – mais ainda – escrevo sobre territórios, sobre ocupação de espaços, sobre linguagens, sobre descolonizações de pensamentos. E esta minha escrita se realiza a partir de um ‘ser lésbica’, a partir de uma vivência. A partir do ‘continuum lésbico’ do conceito de Adrienne Rich, de que ser lésbica vai muito além do campo afetivo-sexual, mas sim está aliada ao unir-se à outras mulheres contra a tirania masculina. É um modo de ver e atuar no mundo”, enfatizou.

Bárbara Esmenia é uma das fundadoras da padê editorial (foto: Daisy Serena)

padê editorial: politicamente inclusiva
Já citamos, mas história boa é sempre bom repetir. Para lidar com a invisibilidade e jogar luz sobre a produção independente, negra e LGBT, em 2015, Bárbara uniu-se à Tatiana Nascimento e juntas criaram uma editora que fabrica os próprios livros em tiragens limitadas de até 300 exemplares, encadernados à mão, com capas também pintadas à mão, uma a uma e vendidos no circuito independente. Fugindo do grafo centrismo predominante no mercado editorial, a padê também escolhe, politicamente – e naturalmente-  fazer publicações LGBTs e negras.

Na entrevista, Bárbara contou que a ideia surgiu durante o festival Latinidades, no Distrito Federal, há dois ano. “Tate estava com um livro cartonera, virou para mim e disse: – Vamos criar um editora assim? Ao que respondi: – Vamos!”.

Sete meses dois a padê colocou no circuito independente de literatura brasileira os livros “Penetra Fresta”, da própria Bárbara, e “lundu”, da Tatina Nascimento.

Essa coisa de publicar somente mulheres negras e pessoas lgbt’s nem foi muito discutida entre nós; não surge assim como um “conceito”: – Ó, agora vamos definir um conceito para este projeto… Não, já veio de nós sabendo mesmo qual nosso lugar no mundo e o que queremos fomentar, quem queremos publicar, quais narrativas queremos que sejam objetos tocáveis de escrita e registros históricos. A opção política já vem de antes, da construção de nossas militâncias, do que buscamos construir. Aí foi só juntar e, na soma, o recorte destacou-se”, lembrou.

Lésbica, negra, poeta, atriz e combo social
Como nem tudo é perfeito, não fugimos das perguntas clichês na entrevista e quisemos saber da Bárbara: como é ser mulher, negra, lésbica e poeta na sociedade? Gentilmente, ela nos explicou que é um super combo, composto por passar muito tempo da própria vida tentando entender o lugar no mundo – mas não diferente de muitas pessoas.

Bárbara Esmenia divide a própria trajetória na entrevista (foto: Arquivo Pessoal)

Só que logo de cara recebe mil piadas, discriminações, impedimentos, xingamentos, então saca que tem algo errado no mundo. Quando não, é tu quem acha ser a errada e aí se não tiver um apoio, se afunda mesmo. Tenta entender seu lugar e os porquês destas opressões, os porquês das pessoas serem violentas contigo, te desejarem mal, te maltratarem, sofrer machismos, lesbofobias… Você precisa ficar em vigilância constante pelos lugares em que transita, sempre alerta, viva. Eu entendo hoje meus lugares de privilégio. Transito por lugares em que encontrei um modo de agir e estar que faz com que eu crie defesas, reaja. Isso porque me posiciono, pontuo, falo, não deixo passar batido – na medida do possível e do vivível, óbvio. Quanto a ser negra, de privilégios tenho vários, pois no quesito fenotípico pelo qual é pautado o racismo no Brasil, sou de pele clara, cabelos ondulados, portanto por muitas pessoas nem negra sou considerada. E tudo bem, isso é conceito estrutural também diante do imaginário criado neste país”, considerou.

No entanto, a pauta da visibilidade, ainda latente, permeia outras discussões, como as questões de saúde da mulher lésbica no Brasil, levantadas por Bárbara como um assunto a ser olhado – e que merece destaque, assim como a educação.

“Nos deparamos com diretrizes severas no campo da educação, eliminando matérias de ampliação do olhar de jovens como a sociologia e pregando valores muito pautados no campo religioso de punição que foge à regra heteronormativa. No campo da saúde, não vejo avanços. Até hoje não temos métodos amplamente difundidos de prevenção de doenças nas relações lésbicas. Em todas as instâncias, mantém-se as referências da norma heterossexual como única e correta forma de relacionar-se afetivo e sexualmente. Nas estatísticas de violência contra a mulher, lésbicas são grandes números no caso de estupros, os chamados estupros corretivos, sobretudo com jovens”, destacou, ao lembrar também do caso de Luana Barbosa, assassinada em 2016 pela polícia militar em um caso de lesbofobia e racismo. Na ocasião, Bárbara fez uma poesia sobre o assunto.  E, depois dela, encerramos. A reflexão existe, assim como a necessidade de visibilidade. Que esta seja apenas uma das muitas reportagens sobre o tema, cuja discussão é urgente.

Serviço – Mais sobre o trabalho pode ser encontrado no blog Bárbara Esmenia 

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