Meu café de coador é melhor que o seu especial, que eu não conheço

Experimentar é fundamental para ser melhor. Tente

por Jéssica Balbino*

Quando eu era criança e alguém me oferecia, para comer, algo que eu não conhecia, tinha o hábito de dizer: não gosto! Minha mãe chamou a minha atenção várias vezes sobre isso. Ela diz: “como você sabe que não gosta, se ainda não experimentou?”. E claro, de tanto me dizer isso, me tornei o tipo de pessoa que arrisca, que experimenta, que prova. Com tudo. De ostras e empreendimentos na vida. E há pouca coisa que eu não goste. Mas, há também um problema. Ser uma experimentadora faz com que minha curiosidade seja sempre grande:  com comidas, projetos, pessoas e claro, com a minha área de atuação: literatura. Talvez tenha me feito uma pesquisadora. E daquelas que não se contentam com o banco da academia. Daquelas que querem ir além. E eu fui, afinal, sou experimentadora. E não paro. Não há um dia em que eu não prove algo novo: um sabor, uma música, um (a) autor (a), uma conexão.

E ao longo desses 32 anos, tem sido maravilhoso. Conexões nos fazem maiores – e melhores. Não julgar, mas experimentar, nos faz ter propriedade para falar sobre. Eu não gosto de fígado e nem de miúdos de boi, galinha, etc. Já tentei comer mais de uma vez.  Não consigo me acostumar. Demorei a gostar de frutos do mar, mas hoje como e aprecio. Sempre amei café. Sou do tipo apaixonada. Viciada. O mesmo com a literatura. Não consigo gostar muito daquela rebuscada, que exclui quem a lê – e nem falo de mim, mas de quem não consegue, mesmo, acessar e compreender. Conheço pouco dos clássicos, demorei a ler e a gostar. E sou A-P-A-I-X-O-N-A-D-A pela literatura feita às margens (daí o nome do blog, do projeto, etc, caso não saibam) e quando digo margens, falo no sentido mais plural possível. É igual a minha relação com café. E eu amo café. E literatura marginal.

E não paro de experimentar os dois. Vou a cafeterias e levo meus livros. Vou a livrarias e peço cafés. Vou a eventos comprar livros e tomo muitos cafés. E faço também. Livros e café. E experimento todos. E jornalismos também. E troco ideias sobre. E busco pessoas que tenham o mesmo gosto, pra gente conversar sobre. E na academia, tomo café, leio livros e converso sobre. E nos festivais literários. E nos festivais de cafés, falamos sobre livros. E unimos as paixões. E, jamais, julgo um café antes de prová-lo.

Nem mando textão na internet dizendo que o café que não me mandou grãos ou pó é isso e aquilo, invalidando-o. Eu vou conhecê-lo, sempre, antes de dizer qualquer coisa. E, com perdão do fígado ou dos miúdos, não tenho muito tempo para ficar por aí dizendo do que não gosto. Como boa atuante também da área de marketing, devo dizer que toda publicidade, mesmo a que tenta invalidar, acaba por promover. E mais não digo, até para não promover o que não é o foco por aqui.  Por isso, me atenho a dizer do que gosto. Me atenho a fazer listas do que acho positivo. Me atenho a promover cafés, livros e festivais que eu gosto. E não é que eu não problematize. Eu estou fazendo isso agora.

Mas, prefiro fazê-lo em momentos e canais de troca. Quando há abertura para isso. Festivais são ótimos para isso. Mesas de debate também. Cafés com os amigos idem. Cervejas no bar da esquina fazem maravilhas quando o assunto é problematizar questões infindas. E, em último caso, e-mail ao SAC, aos coordenadores, aos curadores, ao departamento de marketing também resolvem. A problematização pública é exaustiva. Expõe mais do que contribui e vai contra, justamente, aquilo que acredito. E contra a pessoa que tento ser: melhor e com os ouvidos mais abertos a cada dia.

E explico porque digo isso.  Deslegitimar cafés, livros, pesquisas, festivais, comidas, miúdos de galinha jornalistas, frutos do mar e pessoas tornou-se um hábito.  Se eu não posso ter, fazer parte ou protagonizar, eu tenho, ~necessariamente ~ , que falar mal – e sem saber, claro – pra invalidar.  Eu tenho que vomitar minhas opiniões costuradas no banquinho da academia, onde fui obrigada a ler toneladas de livros que não são meus preferidos e me fazem falar com uma linguagem bem pouco acessível sobre aquilo que eu não conheço. Sim, eu não conheço. “E nem quero conhecer”.  Mas, quero deslegitimar.  Não me enxergaram aqui, do alto da minha sabedoria intelectual – de quem bebe café, não come fígado, pesquisa e escreve – então, vou falar mal. Vou fazer textão. Vou chamar meus amigos pra me apoiarem. Não importam os motivos de quem não me enxergou. Eu tenho que deslegitimar. Só assim, conseguirei me destacar em algo. Não consigo me destacar pelo meu trabalho, mas pelo que considero um erro no trabalho alheio. É meu mecanismo. E isso tem a ver com sobrevivência. Com alcançar objetivos. Com o “os fins justificam os meios”.

Se eu quero algum destaque na minha área, mas existe alguém que já faz o que eu sonhava em fazer,  por que, raios, eu vou me abrir ao que esta pessoa tem para trocar comigo e melhorar? Não é mais fácil eu investir esforços em tentar tirá-la do lugar em que ela está? Não é assim que vão me notar e dizer: nossa! você é realmente boa no que faz. E como eu faço isso?

Eu tenho que mandar textão, questionando o meu principal mote de sucesso, que não é meu, mas tomei emprestado porque é o que dá liga – e dinheiro atualmente: raça e gênero. Eu tenho que dizer que as pessoas não são sérias, que não estão à minha altura e tenho que deslegitimar suas áreas de atuação sucessivas vezes, numa clara tentativa de acreditar no que eu mesma estou escrevendo, afim de que outras pessoas acreditem também e me acompanhem no exaustivo debate virtual, já que eu não vou levantar minha bunda da minha cadeira e ir vivenciar, descobrir e experimentar. Meu curso e a academia não permitem. Isso me tiraria do lugar autoritário acadêmico de me sentir – e fazer múltiplos esforços para provar isso a mim mesma, o tempo todo – melhor do que os outros.

Se eu silenciar quem discorda de mim – mesmo eu pagando de ser contra o silenciamento – é mais fácil pra eu me firmar como única verdade no mercado pelo qual batalho – ainda que de forma irresponsável, desonesta e sem seriedade – u lugar.

Já pensou se eu não fizer tudo isso?! Se eu não agir desta forma, o que eu gostaria de ter/ser não vai me notar. A marca de café vai continuar sem saber que eu existo e não vai me mandar grãos.  Os autores que eu desejo conhecer mas faço a linha “não conheço e nem quero” não saberão que eu existo e não vão me enviar seus livros pra provar o contrário do que estou dizendo. Já imaginou se eu não fizer textão deslegitimando a curadoria de festivais literários que não me notaram enquanto pesquisadora séria e sequer perceberam minha área de expertise? Jamais serei convidada para compor qualquer mesa sequer nestes espaços.  Que claro, sonho com eles, mas, se eu não fizer parte, então, não me servem. Mas, se eu usar a fórmula do”textão + opressão de raça + opressão de gênero + termos acadêmicos + juventude intelectual”, talvez garanta meu lugar em algo na programação – e faça disso um vetor de carreira, citando a todo momento em tudo, que eu praticamente mudei os rumos do festival depois que “refleti” sobre alguns pontos a partir da minha inalcançável vivência a partir da premissa metodológica básica de pesquisa da minha área – nada suposta e bastante séria – de pesquisa.

Por que, pra mim, ser séria é isso: estar fechada com o que eu penso e com o que dizem os livros – afinal, são eles, os únicos detentores de qualquer fonte de informação e conhecimento. Ser séria é deslegitimar qualquer coisa que balance o que eu construí como a única verdade. Quem ousar fazer isso, não é tão sério, importante e imponente como eu e minha pesquisa, oras. Já pensou haver múltiplas explanações para além do que eu leio e conheço? Já pensou eu ter que viver pra saber de certas coisas? É difícil. Mandar textão deslegitimando é mais fácil.

Já imaginou se eu não deslegitimar alguém que fez exatamente o que eu gostaria de ter feito, só que antes de mim?! Como essas pessoas vão saber que eu existo e me alimentar com suas sobras? Não tem como. Qual meu mecanismo? Crio um “projeto revolucionário”, que soe como incômodo, com um nome parecido – não o mesmo, senão soa como plágio – mas parecido, para soar como uma provocação intelectual e tentar validar o que eu faço o tempo todo: repito minhas mentiras ininterruptamente, para acreditar – e trazer pessoas comigo – que são verdades. Vai que cola – e às vezes dá certo, me garantindo viver disso – e eu pareço até subversiva.

Pense só se eu não deslegitimar quem tem mais de uma ocupação, se destaca e vive do seu trabalho – sério, responsável e respeitoso – com parcerias com grandes instituições, promovendo debates justamente sobre o que eu tento tensionar em meus vanguardistas textões, que não saem da internet e não dialogam sequer com meus “objetos” pesquisados, como vão saber o que eu penso, se eu não usar da disfarçada tentativa de ofensa, mascarada de bom senso e preocupação acadêmica e séria? Como vão me notar?

Como eu vou poder continuar vivendo em meio a cafés, livros e festivais, se eu não for contra tudo aquilo que me provoca, despeita, tira do lugar comum? Como eu vou ser eu mesma, se eu não deslegitimar que não como fígado para validar meu excesso de copos de café expresso e para externar minha inveja? Como eu vou poder viver e ter meu tão almejado destaque e ocupar os lugares que hoje eu falo mal, se eu não puder lançar mão do meu texto e da minha fórmula da “oprimida que é intelectual”, se eu me jogar numa jornada de conhecimento? Se eu me abrir para trocas, me bagunçar e aprender com elas?

Ah vá. Eu sou melhor que isso tudo.

(O Lobão é, também, o melhor exemplo disso tudo)

Como eu vou fazer para justificar o meu trabalho se as pessoas teimam em tirar termos das caixas que acadêmicos levaram tanto tempo para enfiar? Como eu vou ter o destaque que almejo se toda hora vem alguém – que tem uma trajetória e por isso está onde está e eu deveria respeitar – diz/faz algo novo e me tira do meu lugarzinho cômodo? Se estas pessoas me obrigam a ser melhor, mas eu, com preguiça, prefiro deslegitimar do que alcançar meu espaço?!

Como eu vou abrir linhas para o diálogo se ele pode me tornar melhor – me forçando a abrir mão de convicções – se são estas convicções que me trazem o sucesso, de ser convidada para algumas falas que julgo mais importantes do que outras – ou tento me convencer disso?

E não. Essa não sou eu hoje. Mas poderia ser. Como eu sei disso? Porque eu já fui assim. Ainda criança, quando eu não conhecia algo, dizia que não gostava. Já adolescente, quando tinha medo ou pensava que alguma ação era melhor do que as minhas, eu dizia que eram ruins. Espalhava isso. Deslegitimava. É humano. É só um espelho. E lógico que me envergonho disso. Apontar tem dessas coisas. Cada vez que critico alguém, escorrego, e vejo múltiplas mãos apontadas pra mim, expondo meus deslizes e feridas.

E o conhecimento também tem dessas coisas: aprisiona e liberta. Se eu acho que já sei tudo que deveria saber ou que minha linha é melhor do que a das outras pessoas, me aprisiono num mundo que não passa de determinado ponto. Mas, quando eu me abro para as trocas e ouço. Eu aprendo. E aprender tem disso: faz a gente perceber o quão mesquinho e arrogantes podemos ser – e já fomos, outrora – por nos julgar melhores do que os outros, justamente, por falta de conhecimento – ou de abertura. Ou, pior, de disposição para conhecer.

Disposição é uma palavra que tenho usado bastante. E praticado. Tenho tido bastante disposição para provar mais marcas de café, novos autores e festivais. E tenho gostado. E tenho tido menos disposição de reclamar dos que não gosto e não me satisfazem, e mais disposição em provar novos, em testar misturas de café com chantilly, em cometer o maior dos pecados dos baritas: a bebida com açúcar. E sim, tenho feito isso tudo. Tenho sido plurar. E tenho usado o termo marginal com frequência e de forma mais polissêmica do que a habitual. Tenho evitado pôr minhas coisas em caixas: isso as organiza, mas também as limita. A bagunça permite que novas ideias surjam. E isso é também – cientificamente comprovado pela academia, rá – um hábito das pessoas criativas. E é essa criatividade que tem me levado além. É a falta de caixinhas para organizar termos técnicos, acadêmicos e marcas de café, bem como autores, que tem me permitido ser melhor. E experimentar. E os novos sabores são incríveis. É claro que o café coado em casa, no coador de pano, no melhor estilo mineira que sou, é meu preferido. E dele, não abro mão. Mas, não é porque ele é bom e eu goste bastante, que eu precise dizer que o café expresso não é bom – ou sério – e que baristas que bebem a bebida sem açúcar não sabem do que estão falando, afinal, isso não consta nos livros que eu estou habituada a ler. Até constam em outros, mas, se eu não conheço e não gosto, não presta (!!!)

Ser plural me permite experimentar. E gostar. E não enjoar. E querer café feito em casa. Café expresso. Cafés especiais. Mas, pra ser isso, tive que aprender, ao longo do tempo, a ouvir. A ter disposição de ouvir. E, ouvindo, tenho aprendido tanto. Antes, quando eu não me permitia experimentar coisas novas e as deslegitimava por preconceito e inveja de não fazer parte, eu não sabia ouvir. Não sabia não protagonizar. Se eu estava numa conversa, eu tinha que validar, o tempo todo, que meu tipo de café era o melhor. Que o meu festival preferido era único e que somente meu autor – com meus termos preferidos – era importante, fazendo de mim uma exclusividade e raridade na pesquisa séria. Com isso, eu garantia meu tão sonhado lugar e mais, avançava para ocupar, forçadamente outros, por meio da deslegitimação. Mas, eu era mais vazia. O que eu aprendia com isso, se eu julgava se só o que eu sabia era o certo? Se minha verdade era única? Se um evento só era bom se eu fosse protagonista? Se julgar é mais fácil que mudar e melhorar?

Pois é. Foi quando me abri a novas experiências, narrativas, versões e me desprendi dos rótulos e caixas é que entendi que tão importante quanto falar, é ouvir. Que tão importante quanto escrever, é ler. Que tão importante quanto ter voz, é urgente ter ouvidos. Que tão importante quanto querer público no meu evento, é ser público em outros eventos. Por várias vezes, organizei e produzi eventos e morri de medo que não fosse ninguém. E, aberta às reflexões e a ser alguém melhor, menos egoísta e egocêntrica, me questionei sobre isso: eu vou a outros eventos? E quando os convites não me chegavam, eu pensava: eu convido estas pessoas? E quando eu não era o centro do debate, me questionava: eu preciso, de fato, falar? Eu estou pronta para isso? Quem está falando não tem algo que contribua para minha formação e me melhore? O café que ela toma, a forma como ela coa, os livros que ela lê, as viagens que ela fez, os eventos que ela organiza, os locais pelos quais ela já passou, os autores que ela conhece, a vivência que ela tem, podem contribuir com a minha, ou minha verdade é única: o que eu conheço e gosto no centro de tudo, sempre?

E foi, com base nestas reflexões, que entendi que é preciso ouvir. É preciso ser público. É preciso ir a eventos como espectador – e assim também se aprende a produzir seus próprios – é preciso ler monografias, dissertações, teses, suas bibliografias, conhecer seus pesquisadores, ir a festivais, simpósios, jornadas, corredores de banheiros de palestras, rodas de conversa, saraus, slams, praças públicas, bares, restaurantes, hospitais, velórios, picos, bares de esquina, periferias, centros. É preciso experimentar. É preciso estar aberto a ouvir. É preciso não ser protagonista o tempo todo. É  preciso ser cuidadoso de verdade. E não é preciso que me agradem o tempo todo. Que me coloquem em destaque. Que me convidem. Eu posso e devo ser público. E eu devo ter disposição, apetite e vontade para conhecer quem veio antes.  É preciso conhecer os trabalhos de quem já se desdobrava quando ainda sequer pensávamos nisso. E pra isso tudo é preciso ser sério. Honesto. Consigo e com os outros. Ser humano. Ser humilde. Reconhecer as próprias falhas, limitações e aprender com elas. E com as dos outros também. Aprender a não falar sem saber. A não escrever sem antes checar uma, duas, dez vezes – e aprendi isso sendo jornalista. Troca é outra palavra que tem me agradado. Trocar significa soma, sempre. E queremos mais. Mais cafés, mais pesquisas, mais encontros, mais debates, mais gente que nos ensine. E queremos fazer a diferença de uma forma honesta. E tenho tentado. Errado. Aprendido. E trocado. E sendo melhor (…) e nesse looping eterno e contínuo de aprendizado, posso dizer: experimentem antes de dizer que não é bom.

  • Jéssica Balbino é jornalista, mestre em comunicação pela Unicamp, pesquisa literatura marginal, escreve, lê e toma bastante café. E não come fígado ou miúdos de galinha ou boi.
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1 comentário Adicione o seu

  1. Mina disse:

    Seu texto é dinâmico e prende o leitor. Achei interessantes suas considerações em relação as experimentações da vida. Obrigada por compartilhar conosco. Abraços!

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