Quando eu deixei de ser conveniente e me tornei uma mulher ‘louca’

Eu nunca fui o estereótipo da beleza. Sempre fui gorda e vivi com tudo que esta palavra pode ser ou significar para um ser humano com um corpo, mas nunca fui burra. Alguns dizem que isso é uma forma de compensar a falta de atributos físicos dentro do patrão estético cultuado. Então, sempre fui gorda, inteligente e durante muito tempo, fui conveniente.

Tinha mais amigos do que amigas e com este comportamento lubrificava as engrenagens de um sistema patriarcal, que nos pressiona todos os dias, dizendo que as mulheres são rivais e os homens são espécies raras, das quais devemos nos desdobrar para cuidar e garantir que vão preferir nós às nossas iguais. Então, sempre fui conveniente. Eu tinha que ser, afinal, já não era padrão, imagina se eu ainda me comportasse de uma forma diferente da esperada de mim?

Sempre fiz de tudo para agradar aos homens que me cercavam. Sempre fui atenciosa, companheira, ombro amigo e, em alguns momentos, peguete. Mas, quase sempre, às escondidas, afinal, boa parte dos meus amigos ‘homens’ tinham namoradas e não podiam ser vistos com a gorda do rolê. Eu achava que era OK ficar com eles. Eu era conveniente.

Eu apoiava incansavelmente cada um dos meus amigos homens, acreditando que, se um dia eu precisasse de apoio, eles fariam o mesmo por mim. Eu ia nos seus eventos artísticos, comprava seus produtos, lia, comentava, recomendava, indicava em eventos, passava noites escrevendo projetos, trabalhando de graça, emprestado meu talento e sendo bem conveniente. Em algumas conversas, os encorajava. Participava das críticas às outras mulheres e me considerava ‘a diferentona’, afinal, eu não era um deles, mas estava com eles. Era especial. Era a amiga. A confidente. A peguete (escondida). A braço direito de vários machos.

Eu era conveniente e não achava que isso pudesse ser um problema. Aí, um dia, conheci um grupo de mulheres e participei de um debate. Ouvi histórias bem parecidas com as minhas. Voltei para casa questionando alguns comportamentos masculinos. Segui nessa e passei a questionar o meu próprio comportamento. Ouvi mais mulheres e passei a ouvir, com mais atenção, sobre sororidade.  Passei a recebe-la em troca. Identifiquei que eu estava apenas sendo conveniente. Então, trouxe esses questionamentos para os meus amigos homens. Fui repelida logo na primeira vez: ‘- onde você vai com esse papo de mulher feminista?’, ‘as feministas são muito radicais’, ‘as mulheres trazem  para alguns homens como nós, que respeitam suas mães e irmãs as frustrações de relacionamentos pessoais’, ‘as mulheres confundem amor não correspondido com machismo’, até o mais famoso deles: ‘você está louca?’.

Sim, eu deixei de ser a pessoa conveniente para ser a pessoa louca. Eu tinha emprego, uma carreira promissora, oportunidades de trabalho e uma rotina intensa. Tinha muitos amigos – a maioria homens – e era benquista enquanto era conveniente. Passei a ser tratada como intrometida, quando questionei uma escapada sexual. Passei a ser tratada como a louca apaixonada, quando me descontrolei em uma relação conveniente e me apaixonei pelo meu amigo. Deixei de ser conveniente e passei a ser tratada como louca por  quase todos os homens do meu círculo, quando eu fiz um pedido: me respeitem como mulher.

Sim! Eu deixei de ser conveniente quando disse aos meus amigos: ‘ei, essa atitude é machista’. Eu deixei de ser aceita e me tornei uma ‘persona non grata’. Eu deixei de ser conveniente e passei a ser ‘banida’ dos rolês que eu mesma ajudava a organizar. Meus amigos não precisavam mais de mim. Afinal, quem iria querer aquela mulher – que nem é bonita no padrão estético cultuado – que questiona tudo? Quem iria querer aquela garota que mandava mensagem dizendo que a poesia incomodava ela e outras mulheres? Que amigo iria querer ficar do lado da mulher que pintava o corpo e postava uma foto nas suas redes sociais, pedindo o fim de um comportamento agressivo contra suas iguais? Isso é inconveniente. Ou, como alguns dizem, é deselegante.

Eu deixei de ser conveniente quando estendi a mão para outras mulheres. E não é nem que eu tenha me negado a continuar estendendo-a aos homens, mas, o simples fato de estendê-la a uma igual, me tornou deselegante. Eu deixei de ser conveniente e me tornei uma pessoa ‘non grata’ quando me recusei a ser dedo-duro, X-9, e ‘cagueta’. Eu me tornei inconveniente quando vi outra mulher reproduzindo um comportamento que eu já tinha tido e passei a reprovar. Eu deixei de ser conveniente quando passei a ser mais do que uma buceta que fazia tudo para agradar. Eu deixei de ser conveniente e me tornei ‘non grata’ quando eu passei a ser uma buceta que fala, pensa e sente. Eu deixei de ser conveniente quando pedi respeito.

Eu era legal, eu era querida, eu era convidada a estar onde me queriam. Aí, eu quis ser respeitada e já não era mais bem vinda. Eu deixei de ser benquista e me tornei mal vista. Me tornei a louca. Eu deixei de ser conveniente porque me tornei a pessoa que usa a internet para prejudicar os pobres homens que nunca oprimiram ninguém.

Eu me tornei uma mulher louca quando passei a comprar mais produtos feitos por mulheres do que por homens. Eu deixei de ser conveniente quando organizei um evento só com mulheres. Eu passei a ser louca quando quis dar voz às minhas iguais e não fortaleci a dos homens. Eu briguei com muitos dos meus amigos quando não me deixei mais calar e ergui a minha voz. Eu passei a ser louca quando eu cobrei atenção, quando eu cobrei carinho, quando eu pedi reciprocidade. Quando eu quis ser algo mais que conveniente.

Por fim, eu deixei de ser conveniente quando eu quis ser uma mulher. E ser mulher é se posicionar. Agora eu estou em outro lugar. Estou sozinha. Estou mulher.

Ser feminista é doloroso!
A gente perde amigos, a gente briga com membros de nossa família, a gente recomeça.
Ser feminista é cansativo!
Ver outras mulheres lutando contra você e você ficar com aquela cara de “migas, não é bem assim!”. E quando elas não escutam, a dor de ter perdido mais aliadas, é massacrante
Ser feminista é difícil!
Aprendemos a selecionar mais nossos relacionamentos e consequentemente, muita coisa fica para trás, muita gente deixa de servir, muito do que parecia amor deixa de encaixar
Vários filmes param de nos agradar
E músicas, então!
A gente se reecria.
Ser feminista é renascer!
A gente passa a enxergar o mundo de outra forma, vê o machismo nos pequenos detalhes
Presta mais atenção nos assédios antes não vistos
Atacamos com tal força que nem sabíamos que havia em nós
A gente aprende o que nos agrada
O que nos prende
O que nos liberta
A gente se quebra e se conserta tantas vezes que é impossível calcular
A gente morre e renasce todos os dias!
Morremos em cada lei contra nossos corpos
Morremos também em cada morte de nossas mulheres
Morremos em cada toque que não autorizamos
Morremos em cada “eu não preciso do feminismo” dito por uma de nós
Mas renascemos! Renascemos, sim!
Renascemos em cada protesto
Em cada criança que repete nossa luta
Em cada texto de empoderamento
Em cada denúncia feita
Em cada uma que se aceita
A gente renasce mais forte e mais veroz.
Ser feminista é doloroso, eu já disse.
Mas acreditem, é necessário.

~Izabely Nayhara

 

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21 comentários Adicione o seu

  1. Angie Cunha disse:

    Amei o texto! Obrigada por ser essa voz tão importante. Beijos!

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  2. Aline disse:

    Amei a sua loucura e reivindico a minha todo dia!

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  3. Mariana disse:

    Texto maravilhooso! Faz a gente querer lutar mais ❤

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  4. Perfeito me vi na maioria das linhas…

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  5. Rhaianne disse:

    Deixei de ser conveniente quando li esse texto. Tinha medo de ficar só mas a julgar as minhas companhias, tenho absoluta certeza de que a minha é mil vezes melhor. Obrigada por compartilhar essa história, era tudo que eu precisava ler.

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  6. Taíse disse:

    Muito bom! Mas, é importante perceber que o comportamento conveniente que observamos na outra hoje pode ser alvo de um processo educativo e não de reprovação… 😉

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  7. Raquel disse:

    Acho que vou chorar.Isso foi inspirador e maravilhoso.Espero que muitas outras sintam tanta familiaridade e verdade como eu sinto agora. Obrigado por compartilhar a sua luta,e fortalecer a nossa.

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  8. valeria costa disse:

    Obrigada.

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  9. Helen disse:

    Deixei de ser a mina maneira do rolé quando um dos caras estuprou a namorada com as mãos na boca da menina (que chorava e tentava gritar), “porque ela estava provocando.
    Os caras ficaram do lado do parceiro, é claro, porque a namorada do parceiro era “louca”, porque “nem você é amiga dela, tá defendendo por que?” , disseram que eu era mentirosa, que eu estava difamando, porque “isso não faz parte da índole dele”, mas mentir, inventar e difamar faz parte da minha, pelo que pareceu.
    Mesmo o parceiro falando que foi isso mesmo que aconteceu, ninguém veio me pedir desculpa por ter me esculachado por algo verdadeiro que falei.
    Deixei de ser a mina maneira do role porque eu decidi que não quero estar junto com estuprador nem com quem defende estuprador.

    Mas tem outras meninas no role:
    A feminista que finge que não sabe disso;
    A namorada esquecida e sem valor(para o namorado);
    A esposa traída pelo esposo que defende até a morte, o mesmo que justificou o estupro do parça.

    Me tornei louca, inconveniente, briguenta e a insuportável sem amigos…

    …porque não passei a mão na cabeça de estuprador.

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  10. Elem disse:

    Adorei seu texto super me vi nesse texto… sou sempre a melhor amiga, a peguete escondida e sempre me quiseram em todos os lugares… até que me apaixonei pelo meu melhor amigo me mostrei mais que uma melhor amiga me mostrei mulher… hoje vivo sozinha e me amando muito mais… o que aprendi com tudo ?? que ser MULHER é muito mais que existir, é lutar por uma igual é se revoltar com atitudes que dão náuseas… é não aceitar migalhas…

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    1. Diana disse:

      Nossa! Força. O melhor de tudo eh perceber a ausência de qualidade dessas companhias (são de papelão) e buscar outras.

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  11. Geraldo azevedo disse:

    Cansativo ser feminista. Sim. Um movimento que se 1. alimenta de medos supersticiosos (engrenagens de um sistema patriarcal),
    2. que alista pessoas no seu próprio exército sem perguntar antes se elas querem (sororidade),
    3.que usa narrativas e dramaturgias sobre a vivência pessoal como se fossem dogmas ou verdades científicas,
    4. que desencoraja o diálogo com o gênero oposto (assume que experiências diferentes não pdoem se compreender e quando um homem o tenta ele estará infalivelmente “mensplaining”)
    5. que adota estratégias de guerra mais típicas sob o disffarce de uma interpretação “dialética da realidade” (assume qualquer erro ou deslize de um homem para com uma mulher como um ato de guerra, uma perseguição política contra a “classe feminina”)…

    Em suma, é cansativo, pois toda postura belicosa, que gosta de apontar dedos, gozar com os próprios dramas, hiperbolizar picuinhas com ose elas fossem o pico da miséria humana, se tornar insensível e intolerante ao outro como se este fosse um “inimigo ideológico inveterado”,…em suma, tudo isso é MUITO DESGASTANTE… tem feministas que precisam de uma boa aula de budismo, se elas realmente querem aprender a descansar.

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    1. homem falando sobre o que não conhece e criticando o feminismo: extremamente cansativo!

      Curtido por 1 pessoa

    2. Poly disse:

      Feminismo é igualdade entre todos os gêneros. Isso que nós feministas buscamos. Existem muitos homens do nosso lado de modo que o correto seria banirmos a palavra feminismo e usarmos mais o sexismo para definir a ideologia de quem não nos vê como iguais. Importante que você saiba que entendemos que seres humanos, onde estão inclusos os homens, erram. Entendemos também que vocês próprios também são vítimas do machismo, por exemplo quando não têm a permissão para fraquejar, como colocado em sua fala. Mas, antes de tudo, vocês não recebem toda a opressão que nós mulheres recebemos. São vítimas do machismo em proporções microscópicas quando comparados a nós. Sejamos uma unicidade em busca do bem estar geral e não mergulhemos nessa dualidade que não existe no feminismo de verdade.

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    3. Kamila disse:

      Não é curioso que o cara chegue aqui e faça listinha de um role que nao o comporta? no aparentemente discursinho zen dele, tem tanto machismo que da pra meditar uma tarde inteira. Nada de novo, ja reparar, né, meninAs…

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  12. Loira Opressora disse:

    Só digo mais uma coisa;;; a presão que vocês vão sofrer Será tão ruim tão ruim, que vcs vão querer de deixar de existir desse mundo

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  13. chrislopo disse:

    Eu acho que ela deixou de ser louca pra ser uma mulher sensata. Deixou de ser uma mulher machista pra ser uma mulher realista.

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  14. Andréia disse:

    Parabéns, belo texto! É incrível como tanta coisa muda na vida quando passamos a fazer estas reflexões. Esta semana, por exemplo, meu marido disse que eu estava sendo agressiva. Estávamos assistindo ao discurso de saída de Dilma e ele me sai com essa: “tá vendo a cara das mulheres? Não tem uma assim com cara amigável”….
    E eu respondi: ” Também não tem nenhum homem com cara amigável. Ninguém com cara amigável, não entendi o que vc quis dizer “… Ele saiu da sala pq fui ” grossa “, nada amigável… Kkkk

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  15. eu fiquei assustadíssima com esse texto. parecia que você estava contando a minha história. me fez entender muito do que me aconteceu e me ajudou a colocar isso em palavras também. obrigada.
    deixo aqui o que esse texto lindo provocou.
    http://revistapolen.com/2016/06/01/sou-feliz-sendo-gorda/

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