SIM, É TEXTÃO |e é sobre poesia, empoderamento, feminismo e amor

por Marília Rossi*

Estive por dois dias acompanhando a gravação de um documentário sobre mulheres poetas na cena independente, marginal e periférica. Documentário este que faz parte do  Margens, da minha amiga jornalista Jéssica Balbino em seu mestrado.‪#‎procuresaber‬ Ela me chamou pra estar junto e o nosso “tamo junto” é bem de verdade. Eis que fizemos as malas e num fim de semana mega quente na capital paulista teve acolhimento, poesia, emoção, lanchinho e muito amor!

A poesia enquanto matéria de estudo e vivência. As mulheres como protagonistas. Uma sociedade inteira como desafio.
Porque a gente enquanto mulher é o tempo todo desafiada a provar tudo: da fragilidade à fortaleza, da santidade à perversão. Somos cobradas por nossa imagem, pelo que escrevemos, pelo que lemos, pelo que fazemos e pelo que deixamos de fazer. É tão comum a gente se sentir perdida, e ainda ouvir que “é mesmo (e é só) coisa de mulher…”.

Pois bem, como um presente do destino, estive ouvindo um bocado o que mulheres que admiro têm a dizer sobre a vida, sobre a palavra, sobre o mundo, sobre a luta!

12743491_10207289898837480_2430329974579604981_nÉ incrível perceber a história de cada uma tecida nas falas, os pontos tão característicos e, entre tantas singularidades, tantos pontos em comum nessa rede de relações.

E de repente me peguei pensando sobre como essa é uma reflexão grandiosa. Nosso lugar de fala, nossa poesia, nossos versos é nosso direito no mundo. É, muitas vezes, a única coisa que temos: papel, caneta e voz. E ninguém tem o direito de dizer o que a gente deve ou não escrever e sentir. Porque ninguém passa pela nossa pele, pelo que há de dentro e forte que nos motiva a continuar, a não esmorecer, a sangrar em página.

Tanta coisa nos afeta e nos atinge e sempre que colocamos pra fora é um exercício de diálogo da gente consigo mesma e com o mundo. É a nossa importância, é o que a gente sobrevive, é o que sobra e o que resta. É nosso posicionamento, que cria também inimigos, intrigas, contras, embates, barreiras, desafetos. Dói quando uma mulher fala, né? Que ousadia o caderninho de cabeceira sair de dentro do quarto abafado para todo mundo ler! Meu deus, que exposição essas meninas falando sobre relacionamentos, sexo, tesão, trabalho, corações, dores e amores! Intriga a petulância de uma mulher dizer – e escrever, e publicar – o que pensa.

Cada depoimento de cada mulher que eu ouvi esse fim de semana me bateu fundo no peito… A história é nossa, ninguém tem o direito de cobrar nada, de reagir ou de questionar nossos caminhos de escrita e de expressão. Que a opinião venha quando solicitada. Já é uma estrada bem sinuosa a simples tarefa de assumir-se como mestra e dona das próprias palavras.

12715748_1029767583757431_4242816590271003267_nA gente já fica num limbo do romantismo tipificado de uma imagem distorcida. A gente vai falar de feminismo, a gente vai lamber as feridas, a gente vai arrancar cicatrizes, a gente vai gritar o sofrimento, a gente vai esfregar a nossa liberdade na cara da sociedade, a gente vai por a nossa cara no sol e a gente vai escrever sobre amor também, sem que isso signifique uma característica única e linear da nossa obra.

Já basta ser mulher, poeta, periférica, sem editora. E olhe que nem vou citar as muitas mulheres negras da cena, porque não quero roubar lugar de fala das minhas manas sendo eu branca. É, e talvez seja isso… Tem muito homem roubando lugares de fala das nossas mulheres. Tem muita gente caçando treta quando a gente grita palavras de ordem organizadas em nossas linhas. Tem muita força quando a gente se une e diz “chega!”. E cada uma sozinha é forte à sua maneira, e frágil à sua maneira.

Pelo direito de peitar a cara do mundo e de chorar no canto sem ser considerada coitadinha. O mundo não é nosso amigo. O mundo não é amigo de quem carrega consigo o gênero feminino. E na literatura, somos um gênero subjugado na estante, omitido nas antologias, oculto nos saraus.

Mulher que escreve é a poetisa bonitinha. Homem que escreve é o cara foda escritor. E vão te julgar por isso. E vão se doer pelo que você escreve. E vão renegar teus manuscritos. E vão te fazer pedir desculpas e sentir culpa e baixar a cabeça. Vão tentar sim.

Mas eu não peço mais perdão por ser mulher e poeta. É sempre luta, é sempre batalha, é sempre esforço e é sempre e muito e demais a nossa mais pura verdade.

Eu poderia fazer aqui milquinhentasecinquentaedez comparações a despeito de como os homens são tratados na cena, de como é mais fácil pra eles, do quanto a opressão exercida sobre nós nos achata, diminui e nos esconde. Acredite, o papo rende. Mas chega! A escrotice humana presente no machismo deles é como correr atrás do próprio rabo. Já existem holofotes demais nos palcos masculinos.

Bora falar sobre nosso empoderamento, sobre nossa autonomia, sobre as nossas organizações, sobre nossa sororidade, sobre as nossas obras, livros, artes! O foco agora é a mulher! É a garota que cola lambes pelas ruas de São Paulo, é a preta que ganha Slam BR, é a gorda que assume seu amor próprio, é da mina que faz financiamento coletivo pro livro sair do sonho, é da lésbica que mete o dedo na cara de quem a insulta, é da trans que é doutora, é da puta que é poeta, é da é da professora que divide o tempo entre aulas e sarau, é da musa que cria a filha sozinha. É de cada uma de nós que VIVE em escrita, literatura e poesia.

Hoje, depois de conhecer a história de tantas mulheres e depois de ouvir um pouco de tantas outras próximas a mim, agradeço à vida por ter me permitido estar presente a cada claquete e poema.

O significado desses depoimentos todos ainda vão reverberar tanto e tanto e tanto ao decorrer do tempo… E cada vez que eu pensar em desistir ou que alguém quiser me silenciar tenho muitos grandes exemplos de que ser uma mulher poeta é uma questão política, uma ferramenta de empoderamento, um meio de afirmação, um modo de ser no mundo.

Sociedade, vai doer, meu bem, desculpa, mas a gente já caminha, escreve, se liberta, sangra, chora, ri, ama e continua, mesmo machucada, há muito tempo. E a gente não morre. A gente é muito dura na queda do seu machismo.

Nós já estamos preparadas para o front, sempre estivemos. O resto de tudo que se cuide!

p.s.: Jéssica, toda gratidão e todo sucesso e todo amor e mais um monte de marshmallow pra ti. TE AMO. Obrigada por tudo!

*Marília Rossi é poeta e professora (e ainda tá devendo um depoimento pro documentário) 

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