Parem de censurar nossas poesias porque tem escrito as palavras FODER e GOZAR

Mulheres negras trabalhando é muita treta vich

por Raquel Almeida*

Ao longo dos anos com a efervescência cultural nas periferias tem possibilitado alguns acessos notáveis. Minha vivencia dentro do movimento hip-hop e literário tem mais ou menos de 10 a 12 anos, nessas andanças era muito raro ver mulheres linha de frente das ações, muitas, inclusive eu me contentava com o papel de coadjuvante só pra estar e participar de tudo por puro amor ao que fazia isso não quer dizer que trabalhávamos menos, muito pelo contrario, muita articulação eram feitas por nós.

Enfim, 2015, observo o quanto crescemos, em quantidade, qualidade, temos nos fortalecido e um dos exemplos nítidos é a Frente Nacional das Mulheres no Hip-Hop (FNMH²), onde aprendo diariamente o que é ser e não só discursar, a Frente sempre lutando em busca de equidade de gênero e repartindo de uma forma que todas tem acesso. Na literatura periférica negra e feminina, temos tido alguns acessos também, pra além de só participar mais indicar nomes e ter uma atuação maior em processos de organizações, etc.

12341105_924837577584106_8281480441927560122_nMas nem tudo é lindo, parece que estamos tendo mais visibilidade, mais ascensão, mais só parece. Tive juntamente com algumas colegas, parceiras de trampo e amigas algumas experiências que só me fez refletir que ainda estamos muito longe de avanços. Foram feitas ao longo desse ano contratações onde nós mulheres negras periféricas aparentemente tivemos a vez e a voz, mas vamos às burocracias…

O burocrático é sempre cansativo, chato, mais já temos uma experiência nisso e mesmo contra vontade fazemos pra poder garantir um qualquer, mesmo colhendo assinaturas, mandando pra produtora, imprimindo, correndo percebi que mesmo com tudo certinho sempre aparecia um coringa pra gente resolver em cima da hora, coisas que eu sei que não precisa coisas que eu sei que já foram enviadas, se já foram enviadas o contratando tem que liberar o cachê, certo?

Ah, o cachê… Outra coisa que percebi que quando nós, mulheres negras somos contratadas o cache é sempre abaixo, mais bem abaixo mesmo do é geralmente é pago pra coletivos mistos ou para homens, e ainda somos contratadas num tom bem assim: “então, só temos isso $$, vocês aceitam? Se não vamos ver outras possibilidades com outras pessoas. Porque é preciso fechar programação pra ontem”. E nós que também precisamos desse mínimo pra viver aceitamos, e muitas vezes sem se dar conta da tiração institucional velada.

Nós não temos que provar que somos boas, que cantamos bem, que escrevemos bem, mas no subentendido temos sim. Essas barreiras visíveis diz o tempo todo prove que é melhor, prove que és tão boa quanto… Outra coisa, por que temos que ficar nessas de dever favor, a contratação não é um favor, estamos sendo contratadas porque nosso trabalho é bom, digno e não estamos pedindo favores, somo mulheres pretas e exigimos sim, tratamento igual, seja do burocrático, no pagamento e na recepção no estabelecimento, porque alguns nem agua nos oferecem. E por que eu tenho que deixar passar em branco todas essas diferenças que parecem normais?

A ultima experiência foi uma contratação onde excluíram duas de nossas poetas e nós só nos demos contas dias antes da apresentação. E mesmo sendo contratadas por mulheres sofremos essas retaliações diariamente e se reclamarmos corremos o risco de nunca mais sermos contratadas pra nada. Há, é bem assim que funciona produção! Equidade de gênero não é só enfiar um monte de mulher numa programação pra dizer que “Ta Teno’, é respeitar o trabalho das mesmas, pagando igual, tratando igual, sem dificultar processos de contratação…

Quero muito que nós possamos também poder exigir respeito, que parem de censurar nossas poesias porque tem escrito a palavra FODER e GOZAR. Parem de nos tratar como amadoras, como a raspa do tacho cultural!

raquel

Raquel Almeida é poeta, mãe da Yakini e realiza atividades culturais com o Elo da Corrente 

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